Batera troca ideia com o baterista do Jota Quest

12 de março de 2014, por Editorial
Em 1993, nascia uma banda chamada Jota Quest, com Paulinho Fonseca (bateria), PJ (baixo), Marco Túlio Lara (guitarra), Marcio Buzelin (teclado) e Rogério Flausino (vocal). Entre tantas conquistas, recentemente participaram da trilha sonora do filme Homem Aranha 2 e, na abertura do Rock in Rio Lisboa, dividiram o palco com Carlos Santana e Roger Waters.

Contratada da Sony Latina, a banda tem disco em espanhol lançado na Argentina, e faz mais de 180 shows por ano no país e exterior. Em entrevista ao site Batera, o músico torcedor do Atlético Mineiro Paulinho Fonseca falou da carreira na banda, que é hoje considerada a de maior renome no cenário brasileiro da música pop. Acompanhe o bate-papo:


Como foi que você começou na música? A Bateria foi o primeiro instrumento que você aprendeu? 
Comecei bem tarde, com 19 anos em 1986, na mesma época em que entrei para a faculdade de Engenharia Mêcanica e a batera sempre foi meu instrumento.
 
Algum baterista famoso te influenciou quando dava as primeiras baquetadas? Qual e por que?
O primeiro LP de um baterista que ouvi foi Spectrum, do Billy Cobham, e foi na casa de um amigo que tocava batera. Nessa época eu ainda não tocava e fiquei maravilhado com o som, gravei tudo que consegui e ouvia direto. Passado uns anos comecei a tocar e a influência foi fundamental. Acabei comprando a batera desse meu amigo, uma slingerland 1968, que tenho até hoje.
Depois de começar a tocar, os discos do Tower of Power com David Garibaldi, assim como os do Santana, com Michael Shrieve, faziam parte do meu dia dia. Naquela época não tínhamos a facilidade que a internet nos proporciona hoje, então era bem no garimpo mesmo, não tinha videos e tudo era muito no boca a boca. 
Em 1987 esse mesmo amigo que me mostrou Billy, me falou de um cara chamado Omar Hakim, que tinha gravado o "Bring On The Nigth", do Sting (1986), então foi uma loucura, ouvi e fiquei louco com aquele cara tocando. O melhor da música pop com um swing inacreditável. Lembro que fui o primeiro a comprar o LP. Logo que chegou em BH, o dono da loja me telefonou, de tanto que eu ia lá perguntar do disco e falou que eu teria que abrir a caixa com ele e comprar o primeiro (risos). 
Omar foi e segue sendo minha grande influência como um super instrumentista que sabe se colocar na música pop (hoje ele está com o Daft Punk e é o batera de Get Lucky, não preciso falar mais nada né?). Já no Brasil, eu sigo ouvindo Carlos Bala, Azael Rodrigues, Serguinho DeLa Monica, Andre Tandeta, Pascoal Meireles, Robertinho Silva, bateras que eu acompanhava no imperdível noite de jazz, domingo na TV Cultura, e, claro, meu primeiro professor, Dom Vaz, que tocou com um monte de artistas, como Tim, Eliana Pitman e era minha referência diária. 
 
Você tem um set de batera simples (1 tom, 2 surdos, bumbo e caixa) mas trabalha bastante a condução e também usa batidas eletrônicas. Essa é uma característica típica da Black Music? Sempre foi sua praia?
A Black Music e principalmente o Groove me facinou desde o início. Eu não gostava dos solos e sim das levadas, sempre fui muito de tocar no "chão"e, quando improviso, é sempre visando uma melodica e seguindo com o groove, uso fills em 2 tempos na maioria das vezes, porém estou mudando e comecei a groovar mais com levadadas Lineares e com isso consigo manter o "chao" e variar bastante, é uma forma interessante de tocar e estou curtindo muito.
Já a eletrônica sempre fez parte da minha vida musical, sempre gostei de programar e tocar junto, criar percussões fora dos padrões e groovar em cima, o Sampler apareceu muito cedo na minha vida e me deu possibilidades infinitas. 
Sempre toquei com Samples e triggers criando texturas e isso é uma característica minha, por isso nao preciso de um kit Grande. Hoje estou usando 2 tons e dois surdos, pois para os grooves e frases Lineares funciona melhor. Nos shows ainda aplico pouco isso, para não assustar meus companheiros (risos).
 
Antes do Jota, você e o baixista PJ já faziam um groove, certo? O que mudou da proposta inicial de vocês para o som de hoje da banda? 
Na verdade só houve um amadurecimento, mas fazemos o que sempre fazíamos nas jams na minha garagem, tocávamos grooves e no meio, um pouco de Rush, às vezes eu atacava de Dave Wechl deslocando os tempos (risos) mas hoje somos mais criteriosos nos arranjos, acho que está faltando um pouco das Jams despretensiosas do começo.
 
Foi por gostar de black music (soul/funk/disco) e acid jazz que você e o baixista PJ resolveram formar a banda? Como era esse circuito musical em BH, no começo dos anos 90?
Realmente era e, é um som que gostamos muito e o Jota é reflexo disso. Quando o Jota apareceu, tínhamos, em BH, um circuito de shows bem legal com festas em galpões pra públicos de 2 mil pessoas, e nas faculdades também. 
Com isso colocamos nossas músicas dançantes pra galera que aceitou muito bem, aprendemos a fazer a festa virar, sacou? Como os DJ fazem, acho que o poder do Jota de entretenimento é muito forte, pois fazemos da nossa verdade o show, realmente gostamos de tudo que tocamos e principalmente gostamos muito de tocar

 
 
No começo a banda fazia um som mais puxado para a black e funk music, hoje faz um mix sonoro peculiar de black music, rock e pop. O quanto disso é algo natural e o quanto é estratégia? A iniciativa de qualquer tipo de mudança vem sempre da banda ou passa por alguma interferência do mercado da indústria da música e/ou da gravadora? 
A banda é muito auto suficiente. Em certo momento soamos mais rock que Black, mas fui natural. São fases e todos nós tivemos influência do Rock 70, Rock Nacional do 80 (quando realmente todos começamos a tocar) e era natural isso aparecer um dia. A banda nunca andou na tendência do mercado, pois isso soaria falso e não iríamos nos sentir bem, trabalhamos com vários produtores que tiveram um papel fundamental em coletar e juntar as ideias de 5 caras. Precisávamos dessa pessoa de fora pra agir meio como um juiz e não ditar novas regras. Isso funcionou bem na maioria dos casos, mas teve coisa que deletamos também.
Sempre soubemos o que queríamos com a música e fomos em direcão disso. Já pensou o Jota hoje lançando o "melhor do Arrocha"? (risos). Ao contrário de tudo, fizemos um CD mais próximo do início que nunca, e chegamos nos primeiros lugares da rádio com nosso groove do disco (Funky Funky Boom Boom, 2013) de “Mandou Bem”. Isso é o Jota: Pop, Funk, Disco, Soul e, por que não, Rock?

Não há dúvidas de que esse “tempero” é o grande diferencial de vocês. Mas o que mudou na sua pegada e estilo de tocar a bateria entre 1993 até janeiro de 1996, quando vocês assinaram com a Sony Music? 
Na verdade nesse período nada mudou, acho que com os anos de lá pra cá, é que as influências individuais falaram mais e fizemos varias experiências dentro do nosso universo pop.

Você esteve na Europa, na abertura do Rock in Rio Lisboa, dividindo palco com Carlos Santana e Roger Waters - duas lendas da música internacional. Como é a sensação de sair de Minas e parar do lado de gente assim, o que é um sonho pra qualquer músico? 
Foi um momento mágico, realmente, chegar no backstage e encontrar Mr. Dennis Chambers fumando um charutão fedorento foi fantastico, pena que sou timido e nao consegui falar muito com ele, mas como artista, ser reconhecido ali foi muito forte e valeu cada minuto de ralação.

Você também tem a filmagem de suas performances ao vivo. Qual o principal motivo? Há quanto tempo você faz isso?
 Tenho filmado algumas coisas, mas não é regra, meu primeiro Professor sempre me falou pra usar um espelho quando tivesse estudando e prestasse atenção no equilíbrio do corpo no instrumento.
Isso realmente é importante e ajuda na performance. Hoje, como venho aplicando coisas novas e tentando mudar alguns parametros sem atrapalhar o Groove, essas filmagem me ajudam nisso. E, às vezes, me sinto até mal ao ver que não esta dando tão certo quanto esperava, então volto a estudar e vamos melhorando (risos). O video é uma ferramenta legal para isso e até mesmo para o fã, quando postado nas redes sociais.
 
Neil Peart (Rush) ou Carter Beauford (Dave Matthews Band). Por quê? 
Cada um na sua hora, dois monstros, o Neil é meu preferido, pela dedicação, técnica apurada, sonoridade, melodia e repertorio. Já Carter destaco, além da técnica, a coordenação, impressionante e a facilidade de condução com qualquer mão. Gênios!

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