Com sotaque curitibano - Entrevista com Nicolle Paes

11 de julho de 2012, por Adriana Pivatti e Site Batera

Uma breve passada por São Paulo, a “falsa” Curitibana, caiçara de Santos, que mais tarde se mudou para Curitiba, parou para falar com o site Batera. Lá, se firmou na música. Logo no início, já teve oportunidade de trabalhar em uma escola de música. Hoje, dar aulas é uma de suas paixões. Por isso, não cria ilusões com bandas, seu objetivo mesmo é ser Sideman.

Entre idas e vindas, Nicolle iniciou seus estudos aos 16 anos, de tanto ver os amigos tocando. Se identificou com  bateria de cara e foi batucar. Uns dos primeiros projetos foi o GURI, da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo.

Depois de ter começado é que descobriu que seu pai já havia tocado aos 17 anos. No sangue ou não, ela permaneceu firme, mesmo com tantos preconceitos, seja de dentro ou de fora da família. Se hoje ainda existe preconceito, há alguns anos era mais forte, talvez por isso seus caminhos deram nó muitas vezes. Mas hoje está ai, firme. “Música foi a única coisa que conseguir me projetar e me ver de verdade, aonde eu me encontrei”, afirma.

Recentemente, participou do Girls On Drums 3, em Curitiba, e mostrou porque está até hoje.

Aos 25 anos, conseguiu se estabilizar e mantém a música como sua profissão, o que é difícil para o músico brasileiro.

Já estudou com Marcio Bahia, Edu Ribeiro, entre outros. Em 2005,  iniciou na EM&T, escola de música, com Christiano Rocha e Giba Favery. Na LEM estudou “Linguagem e estruturação musical”. Em 2007, ainda aos 20 anos, já ensinava.

Além das aulas, ela também acompanha artistas locais, além de trabalhar em produção e na organização de shows: “O baterista é muito limitado na questão de trabalhos, por isso quis tentar interagir mais com a música em geral”, explica.

Nicolle já trabalhou com Guilherme Arantes no final do ano passado: “Foi um trabalho bem bacana, acompanhei o coral de Itaipu e aprendi muito”, lembra.

Site Batera: Você tem alguma noção em estilo, no ritmo que você gostaria de focar?

Nicolle: Eu nunca fui roqueira, do Samba, nunca levantei nenhuma bandeira. Como eu sempre gostei de tocar, o que vinha, eu tocava. Dentro das coisas que eu pesquisei, que eu estudei, ainda estou em construção, me considero bem no começo. Eu gosto muito da ideia de sideman, o músico de apoio. Eu só quero acompanhar, você tem que saber tocar de tudo, tem que saber lidar com cada pessoa e com público. É um grande aprendizado. Eu sou apaixonada por vários estilos.

Site Batera: E o que você tem ouvido ultimamente?

Nicolle: Música brasileira e instrumental em geral. Eu ouço para os estudos.

Site Batera: A família apoiou desde o começo?

Nicolle: Superficialmente, sim. É sempre: Nossa, que orgulho da minha filha. Mas no dia a dia, é complicado. Eu acho aceitável porque ninguém entende nosso universo. Ninguém entende nossas viagens, que a gente vira a noite ouvindo um disco, pensando num groove. Ninguém sabe que ver um show ou um vídeo de uma banda é estudar. Eu acho que tudo isso faz parte da formação, mas é muito complicado para os outros compreenderem o nosso objetivo. Para a família é difícil entender porque nunca quis ser “drum star” (risos). No fundo, no fundo, só nós sabemos o que passamos e os sapos que temos que engolir.

Site Batera: É? Que tipo de sapos?

Nicolle: Eu gosto de dar aulas. Às vezes, não entendem porque eu invisto num instrumento enquanto as mulheres da minha idade preferem comprar sapatos, até mesmo amigas. (risos)

A família, por mais que queiram me manter próxima, não entendem. É uma busca somente minha. Em dias de sol, poderia estar passeando na praia, mas estou lá estudando, dando aulas. Acho que por isso tive idas e vindas, por eu me deixar levar muitas vezes, por eu ser minoria, não simplesmente por ser mulher, mas por ser minoria. E por não ter referências próximas.

Site Batera: Já teve algum momento mais sério de preconceito que te fez repensar se você continuaria ou não?

Nicolle: Bom, de fora? Ah, às vezes acontece, mas nada demais. Acho que só pessoas desinformadas que não sabem que existem mulheres bateristas.

Site Batera: Você tem patrocínio?

Nicolle: Eu tenho parcerias. Uma delas é com a KR Custom Drum

Site Batera: E porque não busca?

Nicolle: Por enquanto, não. Estou buscando mais conhecimento e oportunidades. Tenho alguns planos em mente e estou me preparando para algumas mudanças.

Site Batera: O que você faz para incentivar seus alunos?

Nicolle: Tento conhecer a história de cada um, seu jeito, suas dificuldades e porque a música está entrando na vida dele.

Site Batera: Qual a importância da música na sua vida?

Nicolle: Hum. Boa pergunta! Além de me fazer bem, ela me ajuda na formação como ser humano, é uma escola. Não é só minha profissão, é contínua evolução. Quando pensava em profissão eu me projetava com 50 anos e imaginava como eu seria feliz. Música foi a única coisa que consegui me projetar e me ver de verdade, aonde eu me encontrei.

Mais em: http://www.nicollepaes.com  

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