Daniel Freitas: batucando Araçatuba e todo o Brasil

05 de fevereiro de 2014, por Editorial
Baterista e percussionista, Daniel Freitas é o idealizador do "Batucando Araçatuba", que chega na segunda edição em março . Professor, educador do Projeto Guri, compositor, músico de estúdio e produtor de eventos culturais, Freitas fala da carreira, projetos e o evento que reúne centenas de bateristas e cajoneiros no interior paulista, em entrevista ao site Batera.

Formado em Educação Musical, Freitas tem na bagagem os trabalhos na banda de rock psicodélico Projeto Eternal, e também na Rádio 84, de flashback com hits dos anos 80 e músicas autorais desde 2008. Fundador do grupo experimental de percussão 12 Mãos, é parceiro de Cristiano Silva, no projeto Duo Drums, e baterista da 'Fast Fusion', banda instrumental com 15 anos na estrada.

Gravou para diversos artistas, ministrou aulas de música para mais de 400 alunos entre aulas particulares, conservatórios, workshops, oficinas e Projeto Guri, entre outros. Tem método para bateria de autoria própria e reconhecimento internacional com projetos, composições de peças e cameratas de percussão, além de ter participado do Festival de Cajon e percussão em Lima, no Peru - referência internacional no assunto.
 

Alguém te influenciou a aprender música? O que veio primeiro: a bateria ou os outros instrumentos de percussão?
 Sim, meu pai toca violão e teclado e sempre incentivou o estudo da música. Ele chegava a ser intolerante, preferia que eu faltasse na escola, mas não no conservatório, era linha dura nos ensaios (agradeço-o por isso). Comecei tocando piano aos 6 anos, depois guitarra e por último a bateria. Os instrumentos de percussão vieram bem depois da bateria, vieram quando comecei a estudar ritmos latinos nos anos 90 e senti a necessidade de aprender percussão, uma vez que esses ritmos são característicos dos instrumentos de percussão em sua origem, muitas das vezes sendo a bateria uma adaptação. 
 
Quando e como você se tornou, definitivamente, músico profissional?
Sempre tive bandas desde os anos 80, porém foi na década de 90 que comecei a ministrar aulas e passar todos aqueles conhecimentos aprendidos durante anos, também foi nesta época em que comecei a tocar na noite. Hoje, trabalho e rodo apenas com meus próprios projetos: Grupo 12Mãos, Fast Fusion (minha banda de jazz/fusion instrumental com dois álbuns e um videoclipe), Duo Drums, projeto com um amigo baterista e percussionista Cristiano Silva) onde ministramos oficinas, workshops e workshows; e a Banda Rádio84, que toca clássicos do rock e pop anos 80.
Além da parte musical, também estou sempre envolvido com a produção de eventos culturais, mas ressalto que grande parte do meu tempo mesmo é dedicada à Educação Musical. Trabalho em dois polos do Projeto Guri, tenho uma ateliê de música e ministro aulas no Instituto Bateras Beat, além das oficinas e workshops constantes. Didática é uma das minhas paixões, estou no último ano da faculdade de Educação Musical e já iniciando o projeto de mestrado que consistirá numa pesquisa pioneira no Brasil e em alguns aspectos no mundo. Como também sou formado em radiologia, irei unir as duas áreas (música e radiologia) numa pesquisa, a ideia é utilizar um aparelho de ressonância magnética com potência de 3 Tesla para realizar o mapeamento de áreas cerebrais ativas no cérebro de um músico em diversas situações como: improvisando, compondo, tocando, lendo uma partitura, interagindo, etc. O foco é descobrir, compreender ou pelo menos gerar mais perguntas sobre de onde vem a criatividade e a sensibilidade musical.

Como você concilia todos os trabalhos de hoje, como baterista, percussionista, educador, músico de estúdio, shows e tantos outros?
Tá aí uma pergunta que sempre ouço “Como você dá conta?”. Penso que quando se é organizado, você consegue tocar muitas coisas ao mesmo tempo, quando você não é organizado, você não consegue se quer fazer uma coisa só bem feita. Organização, essa é a palavra chave.
 
Qual a importância de ligar a educação musical à inclusão social? Como você vê esses elementos interligados e qual o seu principal objetivo ao realizar estes trabalhos? Pode dar algum exemplo que já viu ou viveu?
Quando falamos aula de música estamos privilegiando o desenvolvimento técnico do instrumento e todos os seus aspectos, porém quando falamos em educação musical, é diferente, neste último, as aulas de música devem ir além do simples aprender a tocar um instrumento, deve contemplar a inclusão, a autoestima, a arte e cultura, senso de coletividade, criatividade, profissão, disciplina, entre outros valores que devemos procurar transmitir e desenvolver ao educando ou o ser em formação, promovendo o desenvolvimento humano. Costumo dizer que em Educação Musical, apenas a aulas de música que não seja acompanhada de tudo isso citado acima, não transforma. A arte é um reflexo da realidade social e da condição, transformar a realidade é favorecer perspectiva e isso só com educação ampla, uma educação multidisciplinar. 
Presenciei muita coisa nesses 18 anos ministrando aulas, seja em projetos sociais, seja em aulas particulares, workshops ou oficinas. Presenciei crianças se libertando das drogas, crianças com depressão ou TDAH desenvolvendo autocontrole, crianças se tornando profissionais, crianças que demonstravam uma predisposição para o crime, hoje cursando uma faculdade ou sustentando suas famílias. Em se tratando de educação, no meio do processo, às vezes parece que o plano não vai dar certo e teu objetivo não será alcançado, porém tudo que é plantado, pode ser colhido lá na frente, é preciso enxergar longe, em longo prazo e não de imediato, lembrando também que nem sempre teremos finais felizes, mas é preciso fazer.

Além de músico, você também é produtor musical. Esse trabalho veio naturalmente ou surgiu a vontade em algum momento?
Acho que naturalmente, meu pai é compositor, tenho mais dois irmãos músicos que são excelentes arranjadores e compositores também, então acho que foi algo natural, lapidado e desenvolvido pelo tempo e pela experiência. Adoro compor peças, músicas, sons, produzir videoclipes, eventos culturais, elaborar métodos, pesquisar, principalmente em se tratando dos meus próprios projetos, ou seja, aquilo que tenho vontade de fazer. Aliás, me chamam de mente inquieta, estou sempre criando, pensando em algo e consequentemente materializando essas ideias. São temas sempre presentes em minhas oficinas, criar, compor, fazer.

Você é idealizador do Batucando Araçatuba, que reuniu 150 músicos na primeira edição em 2013. Para a segunda edição, dia 15 de março, já tem mais de 250 inscritos. Qual foi a estratégia para esse desafio de reunir tantos bateristas e cajoneiros?
Eu tenho paixão em tudo que faço, não meço esforços, não penso em ganhos, e naquilo que acredito gasto meu último centavo e me enfio de coração. Quando tem esse amor pela arte, pelo movimento, você irradia isso e as pessoas acreditam junto com você neste ideal, então você vai poder contar com muitos amigos e pessoas competentes e engajadas (sozinho não se faz nada), este é o primeiro passo, acreditar. Depois, a organização antecipada e o planejamento são essenciais, assim como a viabilidade e estratégias necessárias para a realização. Hoje, o evento é o segundo maior encontro de baterias do Brasil. Nós não cobramos nada do participante, é tudo gratuito. Ele ganha a camiseta do evento, realizamos sorteios de ótimos prêmios entre os presentes na batucada, para este ano será sorteado uma bateria Odery, uma caixa Odery e um cajón Pithy, oferecemos assessoria e suporte constantes ao participante, gravamos vídeos tutoriais ensinando a tocar as músicas do repertório, enviamos partituras para aqueles que sabem ler, entre outras ações planejadas. O Batucando Araçatuba é planejado juntamente com a equipe da Secretaria de Cultura de Araçatuba, contamos com apoio de outras escolas de música da região que inscrevem seus alunos proporcionando um dia diferente na vida deles e ainda divulgam suas escolas. Ali todos são iguais, iniciantes e profissionais, crianças e adultos, é a celebração dos tambores da alta noroeste paulista ecoando nosso som para todo o Brasil.

Qual é a expectativa de público e de crescimento para essa edição? 
O Batucando Araçatuba teve enorme repercussão tanto no Brasil quanto no exterior e também houve grande participação do Projeto Guri o maior projeto de ensino musical e a maior organização Social do País. Estamos recebendo inscrições de diversas cidades, estados e nossa expectativa é que tenhamos um aumento considerável de mais de 50% tanto para participantes presentes como público externo que vão prestigiar, estamos esperando um público de cerca de 2000 mil pessoas. Hoje contamos com alguns patrocínios que estão investindo pesado no evento como a OMB (Ordem dos Músicos do Brasil), a Pithy Cajones, o Instituto Bateras Beat de Araçatuba, a loja de instrumentos musicais Marinos, a Roland, Chilli Brasil publicidades, e o nosso maior parceiro, que é a Secretaria de Cultura de Araçatuba. 

Qual será a participação do Projeto Guri no evento?
Na verdade são os Educadores e os alunos do Projeto Guri que aderem em massa ao evento independentemente. Eles se inscrevem, participam e o Projeto apoia grandemente repercutindo o evento em suas mídias e portais. Este ano cresceu mais ainda a adesão de todas as turmas e níveis de alunos do Projeto Guri de diversas cidades e a Secretaria de Cultura enviou um convite oficial para a diretoria do Projeto com sede em São Paulo para estar presente no evento e apreciar. 

O que podemos aguardar dos cajoneiros peruanos convidados?
No Brasil, o cajón encontrou um terreno fértil, ele se expande e está se tornando um instrumento bastante popular, porém, 99% das pessoas que tocam cajón no Brasil pensam no instrumento como um substituto da bateria e não em um instrumento de percussão com sonoridade, técnicas e ritmos próprios (percebe porque o Batucando tem o cajón fortemente representado? É a ligação que o instrumento tem com a bateria no Brasil). Isso não está errado, é uma adequação à nossa realidade. É mais fácil carregar o cajón no barzinho ou no churrasco do que a bateria. Contudo, no Batucando teremos os dois lados, teremos cajones sendo tocados como simuladores de baterias no repertório e também cajones sendo tocados como cajón, sendo seu principal ritmo o Festejo peruano que será coordenado pelo cajonero Pithy e por um grupo de música peruana chamado Embaixadores do Peru. Batucando é isso, diversão, arte, cultura, história e entretenimento.

Como foi a seleção dos músicos da banda de apoio para o dia do encontro?
Os músicos foram convidados baseados na afinidade e domínio do estilo de música que irão tocar. Teremos música brasileira, funk Jazz, fusion, rock, pop, festejos peruanos e diversos músicos deverão passar pelo palco Batucando: Mário Carteado, Julinho Mouro, Christian Freitas, Cristiano Silva, Irving, Pithy cajonero, Estevão Freitas, Fernando Barbosa, Henrique Pereira, Fernando Costa, Saulo, Dr. Rodrigo Mendonça, Juninho Moreira, Fabinho Messias, Alex Cobar, porém a cozinha é a banda Rádio84 e a coordenação geral da batucada fica a cargo do grupo 12Mãos. 
No dia receberemos a presença ilustre do Cônsul do Peru (pátria mãe dos cajones) como hóspede oficial da cidade e ainda estamos aguardando mais algumas novidades na qual deixaremos para divulgar após a confirmação. Quero deixar registrado aqui meus agradecimentos aos amigos, irmãos que estão sempre junto comigo na realização deste evento: Cristiano Silva, Christian Freitas, Pepa, Charles, Estevão Freitas, minha esposa Gislaine Ábrego, amigos da banda Rádio84, Professor Hélio Consolaro (Secretaria de Cultura), amigos e parceiros do Grupo 12Mãos e todos nossos apoiadores: Pithy Cajones, Bateras Beat Araçatuba, Marinos, Roland, Chilli Brasil, OMB e Secretaria de Cultura de Araçatuba.

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