Entrevista: Guto Goffi

19 de março de 2013, por Editorial
Qualquer baterista que se destaca em uma grande banda é muito mais que um simples baterista. Flávio Augusto Goffi Marquesini, mais conhecido como Guto Goffi, é baterista da banda Barão Vermelho desde sua formação, nos idos de 1981. Mesmo assim, Guto é muito mais que um 'simples' baterista de destaque em uma das maiores bandas do rock nacional.
 
Ele tem uma escola de percussão, a Maracatu Brasil, uma coleção de instrumentos raros, e diversos outros projetos em que coloca seu talento de percussionista e compositor.
 
Confira a entrevista exclusiva ao site Batera.com.br:

Batera: Como surgiu sua paixão pela música e pelo mundo da percussão?    
Guto: A minha paixão pelo tambor vem desde menino. Aos 12 anos comprei um atabaque em uma casa de umbanda, e ficava no quintal de casa batucando. Aos 15 anos eu comecei a curtir bandas de rock e entre 16 e 17 anos me inscrevi nos seminários de música Pró-Arte, no curso de bateria. Dei sorte de ser aluno e estudar com o professor Joca Moraes, meu amigo até hoje. Aos 19 anos de idade, gravei meu primeiro LP com o Barão Vermelho, para uma gravadora, a OPUS/COLUMBIA em 1982.

Batera: Qual era o objetivo principal quando você abriu a Maracatu Brasil? 
Guto: Descobri o Brasil viajando com o Barão Vermelho. Foram 20 anos ininterruptos de gravações de LP's e turnês. Fiquei amigo de alguns artesãos da cultura popular brasileira que fui conhecendo pelos lugares por onde passava tocando. Meu primeiro contato foi com o mestre Odilon Costa, do samba. Depois conheci o mestre Felipe do Maranhão, do tambor de crioula, que é um dos ritmos brasileiros mais bacanas e dos que mais gosto. Conheci também o mestre Darcy do Jongo da Serrinha, e mestre Salustiano do Maracatu de Pernambuco. O artesão de tambores do maracatu de Pernambuco, Maureliano de Camaragibe, da periferia de Recife, foi meu inspirador para abraçar esse Brasil verdadeiro. Vi que eu podia ser uma ponte de acesso dessas tradições brasileiras e trazê-las para a zona sul do Rio. Quando abri a Maracatu Brasil em 2000, fomos um dos pioneiros em formar esse interesse dos cariocas pelo tambor popular, pelo jongo, samba, ritmos nordestinos, etc. Trazíamos os mestres e os fabricantes desses tambores para a classe média carioca e participamos da formação desses novos batuqueiros. O legal foi que as meninas vieram com força total e muita vontade de aprender.

Batera: Quando se trata de ensinar jovens músicos percussionistas, o que é mais importante passar a eles? 
Guto: Acho que o mais importante é passar o amor e o respeito à música. O primeiro professor de bateria que convidei para dar aulas na Maracatu Brasil foi o Márcio Bahia, que me foi indicado por um amigo formado em bateria no Berklee College of Music. O Guilherme Gonçalves me disse que o Márcio era o melhor do Brasil e acreditei. Tinha que dar o "start" com uma pessoa acima de qualquer suspeita e que não gerassem comentários do tipo: 'por que você não me chamou' - O Márcio teve 44 alunos na minha escola em 2001 e dava aulas de 9 às 19h, de segunda a sexta, coitado. Eram quatro aulas práticas de uma hora de duração, onde se trabalhava repertório de ritmos, e quatro aulas de técnica e leitura com duas horas de duração. Muito bom, intenso, puxado e empolgante. Junto a isso recomendávamos a prática de conjunto e um ouvido ligado.

Batera: O que os alunos de bateria e percussão tem de diferente das gerações anteriores? O que melhorou e o que regrediu nas novas gerações? 
Guto: A minha geração aprendeu na raça. Uma pele Remo de 14' era coisa rara no Rio. Em São Paulo, só a Leimar trazia. Baqueta importada era uma felicidade conseguir. Vi o show do Weather Report no Maracanãzinho em 1978 de binóculo, ligado no Peter Erskine e no Jaco Pastorius. Era pura vontade de aprender. Hoje, você tem acesso a várias coisas no Youtube, ensinam você a fazer sushi, tocar bateria, e até aprender ou desistir de tudo. Vejo crianças tecnicamente tocando muito mais notas por segundo do que eu toco ou já toquei na minha vida. Mas isso não quer dizer que ela fará determinado trabalho melhor que eu. Isso é o mais perigoso para o aluno: encontrar o equilíbrio certo entre o estudo e a hora de digerir e usar essas coisas na música. A bateria é na verdade um instrumento de acompanhamento. É chato quando o baterista não cabe em formato nenhum de grupo e é obrigado a tornar-se um solista por que só sabe acompanhar a si mesmo.

Batera: Você fez parte de uma juventude de músicos que contestou o país 'careta' do período final da ditadura. Como você vê o Brasil hoje? Continua a ser um país careta?
Guto: O Brasil continua a ser um país de filhos das putas. Minha geração fez a sua parte com louvor, mas de pouco adiantou. Estão aí o Sarney, Renan Calheiros, Collor e outros montros criados pelos votos dos ignorantes que não me deixam mentir e me reiludir. E não temos um terrorista verde e amarelo pra explodir Brasília.

Batera: Como você vê as bandas novas do cenário musical? Acha que falta algum tipo de contestação? Quais dos jovens músicos você admira?
Guto: Acho que a música evolui sempre e cada um dos novos músicos vem buscando seu espaço. A música é uma combinação infinita de apenas 7 notas musicais e os novos músicos tem que soar bem originais para terem o reconhecimento e o respeito dos que chegaram antes. Não é fácil, mas também não é impossível. No último CD que o Miles Davis gravou, chamado 'Doo Bop', (1992) ele já estava bem caído de saúde e não tinha mais forças para lutar contra nada. Compôs as músicas deitado no sofá de casa com o som da vizinhança adentrando por suas janelas. Aquele hip-hop do gueto 'black' de Nova York serviu de base para as melodias novas que ele criou. O Jovem é mais sem noção e quer pegar o touro à unha. Eu já tenho 50 anos e não tenho muita paciência pra coisas muito verdes ou sem requintes de sofisticação. Tenho uma roqueira de 16 anos dentro de casa e fico feliz por ela curtir música, independentemente se o que ela ouve é o que eu gostaria que ela ouvisse.

Batera: Na sua coleção de instrumentos, quais são os mais raros? Quais mais te orgulham? 
Guto: Eu tive diversas baterias. Fui endorser da Premier, Ludwig, Bauer, Odery, Yamaha, e atualmente uso a bateria Gretsch. Ganhei muita coisa, mas também comprei muito instrumento legal. Dava preferência às bateras americanas que eu amo. Vendi muitas bateras raras pra Só Palco, de São Paulo. Fiquei com algumas bateras muito fodas:

Yamaha recording custom 9000, 1985 black piano finish de Birch (japonesa) com tambores de 8'X8', 8'X10', 8'X12', 10'X13', 12'X14', 15'X15', 16'X16', 16'X20', 14'X24' e caixa de 7'X 14'.

Premier Genista inglesa de Birch, 1996, cor creme e tambores de 8'X8', 9'X10', 11'X12', 12'X14', 16'X16', 16'X18', 16'X24', e caixa de 6 1/2' X 14'

Slingerland 1956 americana,  cor branca, com tom de 10'X13', 16'X16', 16'X24', caixa de 5 1/2'X14'.

Ludwig maple custom USA silver sparkle com tons de 8'X8', 8'X10', 8'X12', 14'X14', 16'X18', 16'X20'.

Gretsch maple custom USA com tons de 8'X8', 8'X10', 8'X12'. 14'X14' e 14'X20'.

Sonor signature Mahogany com tons de 8'X10', 8'X12', 10'X13', 16'X16' e 14'X22'.

Barravento de Feijó made in Brazil com tambores de 8'X10', 8'X12', 14'X14', 16'X20' e caixa de 5 1/2'X12'
 
Batera: Existe alguma história engraçada ou curiosa relacionada a como você consegue alguns instrumentos?
Guto: Certa vez, fui jantar no Outback, restaurante australiano, e comi a tal costela de porco. No final do jantar pedi ao garçom para que reunisse os ossos em uma quentinha para viagem. Ele me disse, rindo: 'Ah! O senhor tem cachorro em casa, né?'. Levei os ossos para pedir ao luthier Tião Cruz que construísse um efeito sonoro com os ossos. Depois de feito, pensei: 'que merda de ideia, o som não ficou nada demais'. Passados uns dois anos, encontrei o tal efeito em uma mala com instrumentos de percussão e, quando balancei os ossos... que som, cara! Parecia a Catedral de Notre Dame tocando seus sinos. Os ossos estavam secos e com um som incrível.

Batera: Quais os seus projetos atualmente? Algum álbum novo em vista? 
Guto: Em outubro de 2012, lancei o meu primeiro CD solo. 'Alimentar' é um disco mais de compositor do que de baterista. Assino, com alguns parceiros, 22 músicas autorais. Coloquei 10 faixas no CD e 22 faixas na internet, no site www.gutogoffi.com. É lá que essas músicas moram. Canto na grande maioria delas e sou o letrista dessas músicas também. Confesso que a bateria foi o que me preocupei menos no CD. Talvez por já tocar há tanto tempo, tenha gravado todas as faixas espontaneamente. Foram takes quase que de primeira, se é que não foram de primeira. Eu me preocupei bastante com os arranjos e fiz questão de trocar de baixista nas faixas gravadas para o trabalho. Usei instrumentos diferentes do que poderia se esperar do baterista do Barão Vermelho. O mais difícil para mim foi cantar, primeiro porque nunca estudei um instrumento harmônico e não mantinha a prática de solfejo desde quando comecei a estudar música, em 1978. Cantar é muito difícil e simples ao mesmo tempo. É um universo novo pra mim e estou gostando disso: gosto de correr riscos. Não tenho a intenção de ser o baterista mais técnico da minha rua, bairro, cidade, estado, país ou do mundo. Quero, sim, ser um artista da bateria, com assinatura própria, original, criativo, ousado e que deixe claro para quem me ouvir de que venho evoluindo ao longo dos anos. 

Batera: Você vai ter alguma participação na homenagem que o Rock in Rio fará ao Cazuza, ou não te convidaram pra esta festa pobre?
Guto: Fui convidado a participar, mas ainda não assinei o contrato. Seria um grande prazer tocar meus tambores para esse amigo Cazuza que carrego até hoje no coração. Ele me ensinou muito da vida e com sua alegria e inteligência me ajudou a ser uma pessoa melhor.
 
 

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