Léo Cesar

13 de junho de 2006, por Carlos Fernando Maggiolo

Noutro dia a declaração de um repórter conhecido me chamou a atenção. Indagado como se sentia por ter entrevistado dezenas de celebridades – dessas que ficarão nas linhas da história da humanidade, ele simplesmente disse que entrevistar grandes personalidades sempre foi mais fácil, porque não lhe faltava assunto a ser abordado em razão do vasto currículo desses personagens. Isso me fez concluir que, se fosse jornalista, eu estaria morrendo de fome. Compactar uma vida em poucas linhas é tarefa que exige um poder de síntese quase que sobrenatural, mais ainda quando a figura do entrevistado é desse naipe – desses que você não sabe por onde começar. Enfim, topamos mais um desafio: entrevistamos o Léo Cesar, batera do Analfa.

Nossa maior dificuldade foi selecionar quais temas seriam abordados e quais ficariam de fora. Tínhamos que explorar ao máximo essa ocasião – afinal, oportunidade como essa aproveita a todo mundo da galera – e tem muita gente querendo aprender as manhas do Léo.

Não existe carioca com mais de 30 anos que nunca tenha escutado os tambores melódicos do Analfa – isso porque o trabalho da banda é voltado para um público exigente, para aqueles que apreciam o melhor do pop rock, e já se estende ao longo de duas décadas. O Analfa vem dos porões do rock, ou melhor, o Analfa é o porão do rock. Criado em 1983 pelo próprio Léo Cesar, o Analfa é o sucessor imediato e natural do legendário Analfabitles, e desse herdou a fórmula de mesclar a força do rock com a vibração dos ritmos dançantes, fazendo o carioca vibrar a cada acorde da guitarra, a cada virada da batera, a cada sucesso homenageado pelo repertório exclusivo de músicas consagradas. No Analfabitles, as levadas que o Léo desenvolvia na batera tocavam a alma, ele falava com o público através de seus tambores. O Léo não só conseguiu trazer isso pro Analfa, como fez crescer essa característica na banda, hoje, marcante. Quem assiste ao show do Analfa fica dançando sozinho por dois dias.

Não é lenda não – ele existe mesmo! Com vocês, Léo Cesar.

Site Batera: Por que o Analfa não optou por um trabalho de músicas próprias? Essa banda conquistou a estima do público da noite, destacando-se no cenário musical do Rio. Caiu nas graças da crítica especializada, sendo reconhecida como uma das pioneiras e principais bandas covers do Brasil. Ora, o Analfa tem personalidade musical pra dar e vender, tem atitude de sobra – excelentes músicos, técnica e experiência. O Analfa preenche todos os requisitos pra fazer sucesso onde quer que se encontre, seja no rock, no MPB ou no samba. Por que cover?

Léo Cesar: Em primeiro lugar gostaria de parabenizar toda a galera do Site Batera, e em particular a você Maggiolo como grande colaborador, pelo muito que têm feito pelos fanáticos dos tambores, colocando a disposição da galera tudo que existe de melhor no complexo mundo dos tambores de uma forma altamente objetiva e competente. Valeu Batera ! Bem, muitas pessoas nos fazem esta pergunta, pois poucas sabem que no início de 1983, o Analfa assinou um Contrato de 2 anos com a Gravadora Warner, na mesma época do Ira e Titãs. Foi distribuído um disco promocional para todas as rádios do Brasil, tendo de um lado a música “Essência da Vida” do Analfa ( Letra de Paulo Sergio Valle) e do outro “A Gata Comeu” do Magazine ( Tema de novela). Nossa música acabou estourando em várias capitais chegando a ser a segunda música mais executada em todo Brasil - conforme boletim da Ecad, perdendo apenas para “Rebeldes sem Causa” do Ultraje a Rigor. Em função disso a Warner rapidamente nos levou para o Estúdio Nas Nuvens onde gravamos o restante do material para lançar o que seria o nosso “primeiro disco autoral”. Ocorre nesta mesma época uma mudança radical na estrutura da Warner Brasil e vários projetos são engavetados, inclusive o nosso. Infelizmente este disco não foi lançado no mercado e nunca tivemos informações precisas dos reais motivos para o descumprimento contratual. Tal fato nos desmotivou, levando ao descrédito total quanto ao mercado fonográfico. Foi aí que resolvemos partir com tudo para o trabalho do cover (só rock internacional), que já era uma tradição desde a época do Analfabitles, e acabamos nos consagrando como umas das principais bandas cover do cenário musical, o que muito nos orgulha. Ainda temos vontade de lançar um trabalho autoral. Quem sabe não rola !!!

Site Batera: Não são raras as músicas tocadas pelo Analfa em que desfrutamos de uma “batera cover” mais limpa que a própria batera original. Você coloca um brilho especial na bateria – toca numa harmonia com a música que supera a própria gravação original. Como você desenvolveu essa musicalidade?

Léo Cesar: Valeu pelo elogio !!!! O ANALFA sempre teve uma preocupação de se aproximar ao máximo do que foi executado pelo artista que gravou a música originalmente. E isso acabou se tornando nossa marca registrada. Queremos deixar no público aquela sensação de, ao fechar os olhos durante os nossos shows, ter a impressão de estar ouvindo a versão original, ou algo bem próximo dela. Afinal de contas, existem duas vertentes do cover, a que tenta se aproximar do original e a que faz versões totalmente diferentes. Somos do primeiro grupo e conseqüentemente a batera também tem que ficar bem próxima em termos de timbre e pegada. Pra isso procuro ouvir a música nos seus mínimos detalhes para que a batera se encaixe com a máxima perfeição possível, o que acabou me rendendo vasta experiência ao tentar tocar próximo a execução dos bateras consagrados.

Site Batera: Você usa click nos shows? Sua batera é trigada? Por que?

Léo Cesar: Não uso click nos shows, pois adoro ficar solto para poder sentir todo o clima, porém antenado. Entretanto, sempre uso nos meus estudos, pois é fundamental.. Quanto ao trigger, uso nos shows sim. Mas procuro dosar de acordo com o ambiente. Se for favorável ao som acústico da batera, eu uso mais o som original da batera microfonada e com um toque eletrônico. Se o local não tiver uma acústica legal, uso a bateria quase toda trigada, com ênfase maior para os bumbos e tons. Só não uso trigger na caixa. Meus triggers são da DDrum e os cérebros D4 e DM5 da Alesis.

Site Batera: Pelo Analfa passaram grandes nomes da música nacional, alguns conhecidos do grande público, outros conhecidos pela crítica especializada. Essa galera que passou pelo Analfa sempre está presente nos shows e nos eventos. Como é o relacionamento da banda com os ex-integrantes? Fale um pouquinho deles. Por que eles saíram do Analfa?

Léo Cesar: O relacionamento com os ex-integrantes é o melhor possível. Volta e meia alguns dão canja em nossos shows. Recentemente tivemos a presença do Marcus Menna, que foi vocalista do ANALFA antes de formar o LS JACK. Foi emocionante o reencontro. Os integrantes saem do ANALFA na maioria das vezes para alçar vôos mais altos, como por exemplo o Marcus Menna no LS JACK, mas o importante é que todos os que saem deixam parte da sua raiz plantada no ANALFA, pois continuam fazendo parte da “Família ANALFA”, e quem sabe retornar um dia a velha morada pra uma nova temporada do mais puro rock´n roll.

Site Batera: Até o ano passado seu estúdio estava de vento em popa. Você vem desenvolvendo algum trabalho fora o Analfa? Quais as suas perspectivas para o futuro?

Léo Cesar: Ano passado gravamos vários trabalhos gospel, produzimos o nosso novo CD “Analfa 20 Anos”, bem como a mixagem digital do áudio do nosso DVD que também foi lançado ano passado. Além disso é onde ensaiamos sempre. Quanto as futuras perspectivas estamos apostando na descoberta e lançamento de novos talentos.

Site Batera: Li uma reportagem em que o Serginho Herval, do Roupa Nova, disse que foi você quem lhe ensinou a técnica de se usar aquela borrachinha nas baquetas. Onde você aprendeu isso? Funciona mesmo?

Léo Cesar: Uso as borrachinhas desde o início dos anos 70. Um amigo médico me deu uns tubos de borracha, daqueles que são usados em hospitais, pois eu estava procurando algo que amortecesse o som ao bater no prato com a lateral da baqueta, semelhante ao efeito conseguido com as baquetas de feltro. Então experimentei colocar um pedaço daquele tubo na parte superior da baqueta, e descobri uns sons muito legais ao bater nos pratos, principalmente nos de ataque, e passei a usar. O Serginho era fã do Analfabitles e ia sempre aos nossos shows. Um dia ele me perguntou o que era aquilo que eu usava nas baquetas. Expliquei qual era a finalidade e ele passou a usar também. Usa até hoje, e eu também.

Site Batera: Qual é o seu set? Descreva sua bateria e seus pratos pra galera babar.

Léo Cesar: Tenho duas bateras. Uma Premier Resonator (atualmente fabricada só por encomenda) que eu adoro. A configuração dela é composta por 2 bumbos de 22”, tons de10”, 12”, 13” e 14”, surdo de 16” e caixa 14”x 8”. Uso uma gaiola da Gibraltar para os pratos. O outro kit é uma Tama Rockstar daquelas antigas (Made in Japan) tendo basicamente a mesma configuração da Premier variando apenas na profundidade dos tambores. Os pratos são da Zildjian (Linha Avedis) assim configurados: 13” New Beat HiHats Right, 14” New Beat HiHats Left, 15” Paper Thin Crash, 16” Thin Crash, 16” Medium Thin Crash, 17” Rock Crash, 18” Crash Ride, 18” China High e 21” Rock Ride.

Site Batera: Qual o conselho que você dá para aquele que pensa em um dia se tornar um profissional dos tambores? Como você vê o mercado pro músico no Brasil nas próximas décadas?

Léo Cesar: Acho que a dedicação e a disciplina aliadas a paciência, humildade e muito estudo são fundamentais para quem pretende se tornar um profissional dos tambores. A música é pra mim, além de trabalho sério, um super prazer e uma bela terapia. Esqueço de todos os problemas quando sento no meu banquinho. Quanto ao mercado musical brasileiro acho que está cada vez mais difícil. De cara não temos um Órgão que nos assista dignamente. Fora isso, paga-se muito mal aos músicos e a classe é muito desunida, o que dificulta uma virada de mesa. Outra questão séria é a falta de espaços adequados para música ao vivo, reduzindo ainda mais nosso mercado de trabalho e dificultando o desenvolvimento de novos talentos. Espero que a galera jovem que está chegando com todo o gás ajude a mudar este panorama, pois acredito demais nessa juventude, e tenho certeza que com união e luta vamos melhorar o quadro atual, pois a música não pode parar e o rock tem que rolar! Som na caixa Batera!

 

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