Lilian Carmona, símbolo de força e criatividade

08 de março de 2013, por Editorial
Seria no mínimo injusto não tocar em seu nome no Dia Internacional da Mulher. Sem dúvidas, Lilian Carmona é a grande pioneira das mulheres que se dedicam à arte da percussão. Já tocou com músicos de peso, como Baden Powell, Phil Wilson, Leny Andrade, Toquinho, Diana King, Nana Caymmi, Gal Costa, Dominguinhos, Jane Duboc, Nara Leão, entre muitos outros. Com mais de 40 anos de carreira, Lilian é unanimidade quando se trata de qualidade musical.
 
Confira a entrevista:

Site Batera: Como surgiu a paixão pela bateria/percussão?
Lilian: A paixão nasceu primeiro pela música, e acabei me expressando ritmicamente acompanhando as músicas que ouvia em qualquer objeto sólido que encontrasse para bater. Vi a bateria pela primeira vez em 1965 e achei ser o instrumento através do qual queria me expressar.
 
Site Batera: Quem mais te apoiou a seguir a carreira?
Lilian: Em 1965, seria quase impossível uma garota de 11 anos ganhar uma bateria. Se não fosse pela minha irmã, Celinha Carmona, e minha família terem concordado  não só em comprar a bateria como me incentivar, talvez hoje eu fosse advogada. Independente da minha família, o outro apoio veio da família Godoy, os irmãos Amilson, Adylson e Amilton, que me levaram para o profissionalismo.
 
Site Batera: Quais os momentos mais marcantes da sua carreira?
Lilian: Quase todos os trabalhos que realizei, nestes quase 48 anos de bateria, tiveram a mesma importância. Cada momento é único na sua realização e tem seu valor. Dizer que ter  trabalhado com um artista foi mais importante do que com o outro não é verdade, porque cada um requer uma habilidade diferente. Posso citar  um convite muito emocionante que partiu do maestro Ettore Estratta para tocar com a  Royal Filarmonica de Londres ao lado do maestro Jorge Calandrelli, Cesar Camargo Mariano e Paquito de Rivera.

Fazer musicais ao lado de Claudia Raia é muito desafiador e gratificante. Tocar peças escritas para grandes orquestras como na banda da Monica Giardini, requer muita concentração na regência e estes momentos são sempre grandiosos. Ver meus alunos se destacando no mercado musical é super marcante e compensador. Gostaria de acrescentar a palavra  marcante a corajosa.Em 2011 formei uma banda com 10 músicos. Fizemos um especial para a TV SESC e tenho o maior orgulho desta banda!

Tendo sido aluna da Berklee, e hoje, sendo  professora aqui no Brasil, o momento mais marcante foi ter voltado após 31 anos para a Berklee College of Music em outubro de 2012, para ministrar master class e clínicas.
 
Site Batera: Quais instrumentistas te inspiram? Quais músicas te inspiram?
Lilian: Música boa me inspira. Compositores e instrumentistas como Toninho Horta, Filó Machado, Eliane Elias, Débora Gurgel, Marcos Valle, Júlio César Figueiredo, Tânia Maria, Pat Metheny, Edu Lobo, Milton Nascimento, Gino Vanelli, César Camargo Mariano, Vinnie Colaiuta, Randy Waldmam, Earth Wind and Fire, Swing Out Sister, e mais uns cem nomes no mínimo, são a minha constante fonte de inspiração. Difícil é falar quais as músicas que me inspiram. Vim da geração bossa nova e escuto até hoje. As músicas do repertório da minha banda me inspiram muito.
 
Site Batera: Quais características suas te ajudam a tocar bateria do seu jeito?
Lilian: Ouvir muitas vezes a música antes de tocar, para poder entender a sua estrutura e acrescentar cores nos espaços certos; tentar criar um groove confortável junto com o baixista; evitar o over play; trabalhar com a dinâmica; tentar achar algum detalhe diferente para as introduções, sessões A e B das músicas; ouvir os outros instrumentos mais do que a bateria; interagir com os músicos sempre. A técnica sendo sempre utilizada  a serviço da música, e nunca em primeiro plano.
 
Site Batera: Existe preconceito contra mulheres na bateria? Que tipo de situação de preconceito você já viveu?
Lilian: Existiu muito no passado. Hoje tudo é muito diferente, temos excelentes mulheres bateristas atuando no mercado musical. Lembro-me agora do que aconteceu em 1981 em Boston: um músico estava passando via telefone, para o gerente do bar, a lista com os nomes dos músicos para que ele fizesse um pôster. Na minha vez, o gerente ficou inconformado e dizia que ele não estava escutando direito e que Lilian, mulher, não toca bateria, e que só poderia ser William. Quando cheguei no bar, vi o pôster, onde estava escrito: "Drums = William Carmona".
 
Site Batera: O que mais te motiva a fazer música?
Lilian: Geralmente são as músicas que ouço muito. Se eu escuto uma música que me toca muito pela harmonia, melodia e groove, são estes ingredientes que me dão vontade de ir para a bateria e tocar. A outra motivação são as peças escritas para grandes orquestras que me enchem de emoção pela grandeza da sonoridade, e também requerem um alto grau de concentração, assim como desafios de coordenação motora.
 
Site Batera: Que diferenças uma mulher pode oferecer ao trabalho de percussionista, seja na energia, no modo de fazer ou na forma de tocar o instrumento?
Lilian: Na minha opinião, não existe diferença entre homem e mulher tocando um instrumento. Cada pessoa se expressa musicalmente da forma como sente a música. Penso que depende muito mais da personalidade de cada um, que acaba se estendendo para a música. Mas, batendo no liquidificador o grau de musicalidade, sensibilidade, agressividade, disciplina, preparo físico e técnico, experiência, equilíbrio sonoro, bom senso, bom gosto e swing de cada um, somados a muitos anos de estudo, ah! , isto sim pode fazer a diferença.

 
 

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