Na calçada - Entrevista com Nô, ex-batera do Dead Fish

29 de agosto de 2011, por Adriana Pivatti

Em uma calçada qualquer do Espírito Santo, em meados de 1991, que oito garotos decidiram ter uma banda. Não imaginavam que um simples desejo de moleque se tornaria real.

O baterista,  na época com 14 anos, era Leandro, conhecido como Nô. Ele me recebeu em seu estúdio no Tatuapé para uma conversa sincera sobre o Hardcore, Dead Fish, a bateria e falta de criatividade de hoje.

Hoje não pretende entrar em banda, quer continuar dando aulas, trabalhar em seu estúdio, produzir, cuidar de seu projeto, o 'Encontro de Bateras' e se possível, deitar de barriga pra cima no domingo e curtir sua família.

"Meu objetivo nunca foi ter milhões de bandas, era apenas participar de alguma coisa que fizesse a diferença na vida de alguém. Eu achava do car... quando estava no Dead Fish e chegava alguém para falar: 'porra bicho, essa música eu me identifiquei, comigo foi assim também, piro nas suas letras'. Isso sempre foi a gratificação do negócio. Porque se for pensar em Hardcore, você tem que escolher um padrão de vida. O cara pra ser músico tem que saber que ele às vezes vai ter grana ou não", aconselha Nô.


Site Batera: Já pensava em ser baterista?

: Quando eu e os moleques estavamos sentados na calçada e decidimos ter uma banda, cada um escolheu o que queria. Eu e Rodrigo queríamos a bateria. Ficou um negócio meio chato, mas como ninguém tinha a batera, quem comprasse primeiro, tocava. Eu e meu irmão vendemos nossa mobilete e conseguimos comprar o baixo e bateria.

Site Batera:  Quando decidiram montar uma banda, o Hardcore foi uma consequência?

: No Espírito Santo não dava para escolher. A gente ia em show de reggae, metal, o que tivesse.  Como a gente andava de  skate, tínhamos uma influência de bandas americanas que vinham nos vídeos. Todo mundo gostava da mesma coisa, que era um Hardcore melódico tipo Nofx, Bad Religion.  É aquela coisa, você gosta de uma banda e vai pesquisar, dar  uma garimpada e isso nos influenciou. O que tinha aqui era só um 'punckão'. Bandas que se destacaram foi Raimundos e Garagem Fuzz.

Site Batera: Começaram com letras em inglês e depois mudaram, por quê?

: Desencanamos de cantar em inglês, queríamos que a galera entendesse a mensagem e isso acabou tendo uma  proporção que não imaginávamos.

Site Batera:  O que mudou daquela época e hoje no cenário musical e o Hardcore?

:  Mudou tudo. O acesso ao equipamento que naquela época não tinha nada. O cara que tinha uma Pearl era rei. Por outro lado, a facilidade banalizou a música. Na real o negócio começa a ficar mais difícil, tem muita oferta, mas tem muita porcaria e que todo mundo está de saco cheio de ouvir. Tudo é passageiro. A principal meta que assumi depois que passei a ser referência no Dead Fish, foi  me tornar melhor.

Site Batera:  O Dead Fish, até mesmo o Hardcore tem uma intensão política. Você acha que hoje em dia a música está perdendo esse ideal? 

:  Eu fui um cara que aprendeu inglês pesquisando as letras das bandas que eu gostava de ouvir. Consigo traduzir simultaneamente, toscamente, mas consigo entender o que o cara está dizendo. Pra mim, letra é um diferencial muito grande e banda para ter letra boa, o cara tem que ler muito, saber escrever, estudar. Às vezes você vê um cara mais novo, até que ele quer dizer alguma coisa, mas fica muito genérico. Protesta mas não fala nada.

Site Batera: Você ajudava nas composições? O que lê para fazer boas letras?

: Se é uma banda, todo mundo tem que contribuir. E todos participavam. Sempre tivemos um senso crítico no dez. A gente desenvolve a ideia e toca, e muita coisa não passava mesmo. Eu tenho tatuagem com o refrão de uma música que eu fiz que se chama 'Motolov'. Mas a contribuição era na hora da gravação. Em questão de uma frase, lapidando para colocar só o necessário.

Letras eram o diferencial do Dead Fish. O Rodrigo é um cara que sempre leu muito, ele é formado em direito. Se fosse no meu caso, como sou formado em odontologia, seria coisas sobre saúde. O Rodrigo tem essa veia política forte que veio de seu pai e estava sempre presente em sua vida. Não adianta o cara falar de  política se ele não vive aquilo, se não está revoltado o bastante. Para ter atitude ele precisa já ajudar uma comunidade, ser voluntário para tentar mudar alguma coisa, fazer doação, levar cobertor para quem mora na rua. Para fazer letra precisa ter atitude. A música tem que tocar.

Quando  ouço determinadas coisas já identifico: esse cara é fake. Deve morar com a mãe e não faz nada.

Site Batera: Quais as bandas que você ouve atualmente?

: Novo? Pouca coisa. Quem está mandando bem é o Foo Fighters. O Dave Grohl tem uma base fantástica. Acompanho mais as bandas antigas que não cagaram na própria cabeça, tipo o Bad Religion. 

Site Batera: Tem alguma novidade por aí?

: Meu objetivo é preparar uma cartilha para o final do ano com aplicações de tudo que você pode fazer na bateria, no estilo Hardcore. Quero colocar no papel para tentar melhorar o nível. Já ouvi muita banda que tocam duzentas músicas sempre igual. ?Tum pá, tum pá...? No EUA o nível é altíssimo. Como exemplo o Brooks, do Bad Religion, toca tudo muito rápido, limpo e a milhão. Hoje ele já gravou com Deus e o mundo, porque aqui não é tão bom? Lá eles começam com 4 anos, enquanto aqui, nego começa com 25. Como chegar ao nível deles? Se o cara fez 2h por dia em 10 anos, você tem que treinar 10h por dia, assim vai conseguir em menos tempo. Mas aqui não tem estrutura nem planejamento. Quem consegue ficar 2h por dia? Pior é quem tem problema com o metrônomo. Não existe batera bom com tempo ruim.

Site Batera: De onde veio a ideia do Encontro de Bateras?

: Quando eu sai do Dead Fish fiquei descoberto. Eu tinha apoio de várias marcas, patrocínio e não queria parar de tocar. Sempre fui de pegar e fazer. Aí pensei em um lance em que os bateras pudessem se encontrar, tomar uma cerveja, trocar informação e para aqueles caras que não tinham banda, mas queriam tirar a batera de casa. Como eu queria, acreditei que havia outros que queriam o mesmo. Depois pensei em um espaço que coubesse, falei com o Alemão, que é responsável pelo Hangar 110, e rolou uma parceria bacana. Tentei várias coisas até chegar ao que é hoje. Um lugar que você não precisa pagar entrada, ganha um par de baquetas se levar a batera, não paga estacionamento, agora com poket show e um guitarrista acompanhando os grooves.

Site Batera: Qual a importância do encontro?

: Às vezes rola de nego falar mal de algum batera e então eu coloco pra tocar lá e assim formo minha opinião. Você tem a sua e eu tenho a  minha. O espaço é do profissional, ele vai fazer ou não seu nome.

Para as marcas a gente fala pra colocar o produto lá e a galera testa e vê o que acontece.

Site Batera: Você não acha que rola competição?

: Já ouvi cara falando: Meu, todas as bateras no chão? Não dá pra colocar a minha no palco?

O cara que chega lá e fica de nariz empinado, não dá o braço a torcer, não senta na batera, o que está fazendo lá? Outro não, chega, vai com o filho, monta a batera e toca sem se preocupar, lado a lado e com todos no chão. Isso pra mim é primordial, o respeito. A minha batera está no chão. O encontro fortalece quem tem afinidades. Quem vai pra se exibir, não consegue nada e não vai ganhar nada por isso.

Site Batera: A diferença de nível dos bateras atrapalha em alguma coisa?

: Não. O objetivo sempre foi compartilhar informação. É um campo de provas para os profissionais. Muitas vezes rola de você conseguir aluno. Se alguém chega no cara e ele não dá atenção, perde um aluno.

Tem gente que reclama que não há muitos eventos ou que são caros, mas não correm atrás de informação. Existe também o fator preguiça que não faz um cara tirar sua bateria de casa. "Tenho um aluno que traz a batera de Campinas (interior de São Paulo), num carrinho de feira,  no ônibus, depois pega um taxi até o Hangar", diz Nô.


Nô está preparando um encontro em São Caetano, em Novembro.

Importante dar valor para esses eventos que é o nosso espaço. Um lugar para crianças e para toda a família, que está além do ego ou da competição. 

Convido você para ter essa experiência e levar sua batera na última quinta-feira do mês e compartilhar, acima de tudo, um batuque coletivo.

 

 

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