No ritmo do argentino Oscar Giunta

29 de novembro de 2011, por Adriana Pivatti

O baterista Argentino Oscar Giunta esteve no Brasil no dia 3 de novembro, para participar do 2º Bosphorus Night de 2011.

Um dia após o evento, ele conversou com o Site Batera.

Em sua apresentação Giunta mostrou o que é técnica e o que é groove, sua influência latina até de Papa Jo Jones, quando passa sua sensibilidade tocando as peles da bateria com as mãos, ele aproveita cada parte do instrumento, também mostra a mistura da música dos lugares aonde passa. Do Brasil, ele leva sempre a MPB e confessa seu desejo de aprender a tocar Maracatu, mas antes quer conhecer mais sobre o ritmo afro-brasileiro em respeito a cultura.

Ele já foi aluno de um grande baterista brasileiro e que poucos conhecem: 'Cesari Jr. foi como um guru', lembra com carinho. Veja a mensagem de Oscar para Cesari:

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A parceria dele com a Bosphorus aconteceu por influência de um guitarrista, amigo em comum de Hernan e Oscar. Eles acreditam no poder da música como ferramenta para instruir, educar, de apresentar valores como companheirismo, amizade e ética. O problema é que muita gente vê a música apenas como entretenimento e daí o preconceito com o músico e com a arte.

Site Batera: Como o músico é tratado na Argentina? Como são vistos?

Oscar: Não há algo concreto de repressão implícita, mas há um certo perfil político, uma certa ideia de que músico não é considerado artista ou trabalhador. Os músicos estão se reunindo para forçar uma lei que defina os direitos, melhores condições e melhor tratamento. Há um sindicato que não tem um bom relacionamento com o músico, como aqui no Brasil. Nos sindicatos tem muitas taxas e quando você vai ver está pagando para tocar. Na hora de pagar é formal, para receber é informal. Sou a favor de manifestações, porém sem confusão. Com base na conversa.

Site Batera: Conte um poucos mais de sua estreia aos sete anos.

Oscar: Minha mãe viu um anúncio sobre um concurso na televisão para formar uma orquestra. Nem eu, nem minha mãe sabíamos montar a bateria e por isso ela entrou montada. Ao chegarmos na emissora, minha mãe tentou me tranquilizar dizendo que eu faria apenas um teste e depois de quinze dias voltaria para tocar. Eu estava muito nervoso. Ao chegar, o diretor pediu para eu sentar e tocar a música do programa. Como eu já sabia, o cara gostou e falou que dez minutos iriamos para o ar. Eu perguntei para minha mãe: - Ué! Não era daqui a quinze dias? A apresentação não foi muito boa, mas valeu pela experiência.

Eu tocava desde os dois anos por influência forte de seus pais e de um  baterista argentino, que lhe deu um par de baquetas e o batizou. 

Site batera: Fale sobre a experiência de tocar com Cesari. Quanto tempo?

Oscar: Estudei um ano e meio, com início aos 11 anos, depois dos 14 aos 19 anos. Ele foi um maestro incrível, tipo um Guru, um conselheiro espiritual. Muita coisa do que ele falou está acontecendo hoje.

Depois dele, paralelamente eu cursei conservatório público e também estudei com um percussionista, o Paulo La Porta. Ele toca música clássica, tímpano. E alguma coisa de bateria e percussão erudita.

A parte boa de tocar em conservatório foi ter oportunidade de tocar com todo tipo de músico e ritmo, como folk, rock, jazz, etc. 

Site Batera: E a experiência de tocar com Paquito D' Rivera?

Oscar: Em 2004 ele fez 50 anos de música e para comemorar, um concerto no teatro Colón, em Buenos Aires, que se chamava "Cobertura Cubana" com música cubana. Foi incrível tocar com Paquito nesse grande teatro. Também toquei mais estruturado, uma escola diferente, com músicas escritas, pautadas, toda estruturada. Tão importante quanto tocar numa situação de ambiente, de você ouvir o que está acontecendo e deixar fluir. Pensar mais no que se sente. Se usar mais a razão não é música. A técnica é algo a acrescentar e as pessoas se identificam mais com a parte humana.

Site batera: Você já estudou percussão sinfônica. De que forma isso contribuiu em sua forma de tocar? 

Oscar: É muito importante para conhecer a harmonia, a melodia e a estrutura da música, assim, entender a forma musical. Mais que harmonia, saber sentir a música de maneira orgânica. Parece meio místico, mas é uma bateria prática.

Assim, você vai aprender a utilizar no momento certo. Em alguns momentos você pode fazer uma frase linda, porém no momento errado. Técnicamente está certa, mas musicalmente está errado. Daí a importância de se estudar um instrumento harmônico. 

Muitos bateristas tocam pensando no que estudou em casa e isso causa um curto circuito na estrutura da música. Quando o baterista estuda a parte rítmica e não estuda a parte melódica cria um atrito. Os dois têm que estar misturados.

Site batera: Qual a sua concepção de groove e improvisação?

Oscar: Groove é o impulso, a construção de pulso. Muita gente pensa como algo forte. Groove não é o ritmo, é uma ideologia, uma maneira de você incorporar o pulso da música. Tem relação com a respiração, como caminhar, algo orgânico. Um exemplo distante é o Michael Jackson, groove puro, porque ele respirava isso. É pulso natural.

Sobre a improvisação entram outros elementos como a linguagem, a técnica e o vocabulário musical. Para isso, é necessário estudar os movimentos, os rudimentos, paradiddles. São como as palavras que aprendemos no primário, o português. Você aprendendo a falar e com o tempo aprimora sua comunicação. Na bateria é a mesma coisa. Na improvisação você precisa conhecer a linguagem para se comunicar, precisa conhecer as palavras.

Site Batera: Sobre seu quarteto, qual a diferença de ser frontman e ser sideman?

Oscar: São muitas as responsabilidades. Uma você coloca a cara para bater. Se as coisas vão mal ou bem você tem que assumir as responsabilidades. Eu entendo como um campo aberto. É a minha idia e minha concepção da música. Antes eu tinha que interpretar a idéia de outro músico, hoje não. Também é um desafio que não é simples, e que se aprende muito. Não quis um quinteto para ser mais famoso, solista ou ter visibilidade. Quis para poder expor algo espiritual. Quando sinto alguma coisa, eu tenho meu quinteto e posso fazer. Tem relação com a necessidade de fazer musica com meus ideais. Agora chegou o momento. A expressão da alma.

Site Batera: Tem algo do Brasil em sua música? Você costuma levar elementos da cultura dos países que passa, para seu repertório?

Oscar: Sim, sempre. Procuro que seja assim. Chile, a musica folclórica do Uruguai, Já trabalhei com músicos brasileiros, música popular, samba regae, samba. Eu gosto muito de música brasileira e tenho escutado muito. É muito importante antes de tocar algo, conhecer a tradição para não fazer algo errado e desrespeitar a tradição.

Eu me encanto em Maracatu, mas hoje em dia não tocaria porque não conheço. Quero conhecer antes de tocar. Os músicos norte americanos chamam do México para baixo, de música latina, é um grande erro. A  América latina, junto coma África são ricos em variedade de ritmos, quanta coisa para se aprender e assimilar! Então quando você conhece a tradição, entende a música e se dá conta de que tem muitos ritmos que são irmãos. Na Argentina tem um ritmo chamado milonga que se parece com o Baião.

Site Batera: Em uma de suas entrevistas, você falou sobre a dificuldade de introduzir o silêncio na música. E no caso de um solo?

Oscar: Tem a ver como uma situação de conforto, de respiração. Você tem que sentir na dinâmica da música, o momento de parar. Precisa prestar atenção ao redor e perceber da respiração da música. 

Site Batera: E a interação com o público? O que o público passa pra você interfere em sua forma de tocar?

Oscar: Sem dúvida. É uma troca. É bom sentir a reciprocidade do público e quando o público não está nem ai, é meio seco mesmo, você só vai lá pra ganhar a grana e cai fora. Quando há uma troca, é a mágica da música, a comunicação de almas, é arte.


 

*Exemplos de ritmos da Argentina cedidos pelo grande percussionista argentino, Carlos Rivero. ( http://www.bombolegueroypercusion.blogspot.com/ ) 

 

 
 
 
 

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