O melhor lugar do mundo: no banco da bateria

14 de setembro de 2011, por Adriana Pivatti

Ao sentar no banco da bateria e tocar, Túlio está no melhor lugar do mundo.

Foi no dia 11 de julho de 2003, o dia que mudou sua visão de mundo: "caíram os véus da ilusão e eu me deparei com uma realidade que já deveria ter tido muito antes aos 18 ou 20 anos, quando tinha pernas", reflete. Desempregado, naquele dia faria um Freelance, e ao chegar na estação começou a se sentir mal. Num minuto sua vida mudou. Ele caiu na linha e o trem passou por cima de suas pernas. No hospital, informaram que se tratava de suicídio, o que lhe causou grande embaraço, como conta em seu documentário, realizado pela TV Futura.

Após o acidente, muitos de seus "amigos" sumiram, com preconceito por acharem que Túlio tinha se suicidado, nem mesmo quiseram ouvir suas explicações.

Ao acordar para o mundo novamente, ele teve de encarar sua nova realidade apenas com seus pais e um amigo, que não deixou. "Eu posso dizer que tive duas vidas", conta.

Aqui para o Site Batera, Túlio falou um pouco mais sobre sua vida antes e depois do mundo de ilusão para uma nova realidade.


Site Batera
: Conta um pouco de sua trajetória musical, antes do acidente. (no seu primeiro contato, no primário, quantos anos você tinha?) As bandas que já teve?

Túlio: Tenho 54 anos e feliz por uma estrada recheada de altos e baixos como todo Músico Brasileiro. Meu primeiro contato com a bateria foi em 1967 e eu tinha 10 anos. Foi algo mágico, bárbaro porque eu tive uma educação "americanizada", também ouvia Beatles direto. Eu gostava daquela pressão do baixo junto com o bumbo e a caixa. Meu Pai, que era violonista, tinha me colocado para fazer aulas de violão, mas eu gostava muito de tocar uma batera e o derradeiro dia chegou. Foi numa festa Junina na escola primária. Estava tocando uma Banda de garotos, me aproximei babando com aquela sonzeira. Só que no intervalo o cara da batera me chamou e pediu que eu tocasse no lugar dele. Eu fiquei estarrecido! O gurí achou que eu era baterista. Mas à partir dalí eu me tornei um deles, porque eu sabia na minha cabeça tudo de Beatles, Stones, etc. Parti para dar ritmo incendiando a tal Festinha. Me tornei um autodidata baseado nos meus ídolos da época e aos 18 anos comecei ouvir o Hard Rock Inglês básico com as Bandas que eternizaram o estilo e que hoje chamamos de Classic Rock e Prog-Rock. Toquei na night, redutos de bossa, Jazz e bailes nos subúrbios do Rio de Janeiro. Fui fundador das Bandas:

Membranas Perplexas 2001, Cromo 1985, Baralho A4 1984, Easy Rockers 1996, Velho Vinil 2008, Still Rock 2009, Planeta Loucura 2010, além de trampos de Estúdio e atuações na área Gospel.

Site Batera: Porque a bateria? O que ela representa em sua vida?

Túlio: É uma coisa de criança, o ritmo sempre mexeu comigo e virou minha cabeça. Então a paixão pela Bateria se consumou desde muito cedo, ao ponto deu sentar numa e sair tocando sem nunca antes ter feito aquilo.

Site batera: Quanto tempo demorou para você se reabilitar?

Túlio: Depois do acidente, foi muito complexo, porque eu tinha dois objetivos: um era andar e o outro voltar a tocar bateria. Certamente isso causou muita ansiedade, depressão, e eu me deparei com a dura realidade de ter que trabalhar como músico normal, sendo um deficiente físico. Eu fiz show na cadeira de rodas tocando bumbo,  caixa e contratempo (chimbal) em pads eletrônicos usando somente as mãos. Depois de 1 ano de treinos é que eu consegui, através de pernas mecânicas (prótese), a façanha de dominar o pedal de bumbo e a máquina de chimbal. A minha reabilitação e volta aos palcos durou uns 3 anos até que eu ficasse íntimo da bateria e sentasse para tocar sem a menor dificuldade.

Site Batera: Você falou que depois do acidente todos os teus amigos sumiram e que só seus pais te deram apoio. E agora? Recuperou alguns amigos?

Túlio: O preconceito existe! Uma parte pensou que eu iria virar um aleijado, outros pensaram que eu não seria capaz de mais nada e não ousaria a levantar o 'trazeiro' de uma cadeira de rodas. Novamente o preconceito. Então quebraram a cara porque eu parti com muita força de vontade para viver, andar, nadar, dirigir um carro adaptado, trabalhar com Designer e principalmente tocar a bateria com técnica e perfeição.

Então novas pessoas apareceram, outros  reapareceram estarrecidos com o meu progresso e capacidade de auto-dominação físico/mental. Outros apareceram por curiosidade e a mulherada caiu matando (risos), apareceu a Lia que hoje é a eterna esposa, mulher, amiga, namorada, companheira, e empresária.

Site Batera: O que você diria para aqueles que sumiram sem saber de você o que tinha acontecido?

Túlio: Eles não perderam nada. Deixaram de ganhar (meu amor, carinho, amizade, respeito, companheirismo, profissionalismo). O pré-julgamento de que eu havia cometido suicídio faz com que eu entenda que estas pessoas sempre foram superficiais apenas e não me conheciam.

Site Batera: A vida do baterista já é complicada. Quais as dificuldades que você tem que ultrapassar para seguir com esse sonho? A estrutura necessária? As pessoas envolvidas para que você não pare de tocar?

Túlio: É hard! Eu tenho uma Tama Rockstar Custom imensa, pesada e com muitos pratos. Em alguns lugares já tem um corpo de batera, então meus amigos transportam pra mim o básico (caixa, pratos, pedal). Tem lugares que tem que levar tudo, então entra um Roadie (e o músico dança em parte do cachê pra arcar com isso). Nem sempre se ganha o suficiente pra pagar uma Roadie.  Tenho preferido fazer trampos de estúdio e infelizmente escolher lugares onde haja alguma estrutura mínima pra não ter que morrer na praia, digo: pagar pra tocar. Agradeço principalmente aos meus amigos, por me ajudarem.

Site Batera: Fala mais um pouco da sensação de quando está no banco da bateria (o melhor lugar do mundo) como você disse em seu documentário, realizado pela TV Futura, em dias de show. O que você espera passar ao seu público?

Túlio:  Mas nem precisa falar. A minha cara muda, minha expressão muda, pode estar fazendo 0 graus que eu vou suar, ensopar a roupa, e ficar feliz. Vem uma grande força física, um banho de vitalidade e energia. É isso que consigo imprimir na minha musicalidade e os mais sensíveis, percebem. Alguns, lá no meio do público, sentem isso e depois do show, ainda nem levantei da bateria e vão falar comigo dessa estranha, mas feliz sensação.

Site Batera: Por onde você já andou?

Túlio: Eu já rodei o Brasil inteiro, mas os shows em Sampa, principalmente na Bourbon Street com a Blues and Beer e Thijs Van Leer do Focus, foram momentos marcantes porque eu quase fui pra Holanda virar batera de Prog-Rock.

Site Batera: E quando você acordou no hospital e percebeu que não tinha mais as pernas, pensou que não poderia mais tocar bateria. Você conseguiu traçar alguma meta?

Túlio: Foi um momento terrível, como eu relato no documentário. Eu surtei, gritei, e bati pernas, em minha imaginação, pois não as tinha mais. Depois vieram momentos de profunda reflexão e a retomada de decisão numa cadeira de rodas, ainda meio tonto. Eu tive metas: fui pra ABBR (Associação Brasileira Beneficente de Reabilitação), reabiltado e protetizado voltei a andar, malhar, tocar, estudar. Sem força de vontade, sem fé (sem Deus) e sem muita disciplina, jamais teria acontecido.

Site Batera: Você estudou em Harvard. Foi para o Estados Unidos só para estudar. Por que voltou?

Túlio: Não foi bom porque eu fui só para estudar Administração e não Marketing, Arte, Designer ou Música. Por isso, fui e voltei.

Site Batera: Você acha que se tivesse ficado por lá teria sido diferente?

Túlio: Eu estava fora do contexto, não me encontrava, não tinha a maturidade e a bagagem que hoje eu tenho.

Site Batera: O acidente mudou muitos conceitos, sua visão de vida?

Túlio: Os meus conceitos e visão de mundo mudaram muito. Uma amputação traumática mudou a minha cabeça. Caíram os véus da ilusão e eu me deparei com uma realidade que já deveria ter tido muito antes aos 18 ou 20 anos quando tinha pernas. Estamos num plano de provas e expiações, estamos sendo testados. A deficiência física aflorou a minha visão espiritual e me fez rever conceitos de amor próprio, o que as pessoas pensavam de mim (e que não tinha a menor importância), e coisas que achamos que é, mas não é, sacou? Rever conceitos e se auto-avaliar é melhor do que tentar avaliar os outros.

A vida é aprimoramento constante, evuloção, mesmo que pareça que você está em tribulações, mas em verdade você está crescendo e se melhorando com tudo isso.

Site Batera: Se pudesse voltar para aquele dia, você mudaria sua rota, deixaria aquele free lance de lado?

Túlio: Aquele Free-Lance mudou tudo. Aos olhos do homem de "Ferro" eu me "Ferrei" naquele dia. Aos olhos do Homem Espiritualizado, eu fui convidado a me retirar de uma vida artificial em que a rotina era ganhar dinheiro, fama, atenção, bajulações, articulações, vantagens, etc. Então, de uma hora para outra me vejo nú , semi-morto, mutilado num leito de hospital. Alí eu ví que nada daquilo tinha valor. Hoje a amplitude dos meus sentimentos e da minha visão, são muito maiores do que antes. Sim eu tenho lembranças dos tempos em que tinha as pernas! Mas hoje eu sou um outro Túlio, e corajosamente não voltaria atrás. O que aconteceu tinha uma razão de ser, por isso jamais se desesperem. Confiem em Deus, apenas isso!!!

Site Batera: Qual o dia mais feliz e o dia mais triste de sua vida?

Túlio: A minha chegada ao plano terra, já o dia mais triste foi eu ver a morte física dos meus pais. Eles foram grandiosos e muito fortes. Seguraram uma barra que não tava no mapa. Sofreram junto comigo e me amaram o quanto puderam mesmo doentes e numa idade avançada. Mr. Alfred Fuzzatto e Dna. Wilma (Músicos).

Site Batera: Quais suas influências? Seus ídolos da batera?

Túlio: Eu sou um Batera de Rock´n Blues com pitadas de Prog e Jazz. Essas são as minhas influências. Isso significa dizer que só não caio dentro do Trash Metal.

Agora os meus bateras são:

Mr. Ian Paice (Deep Purple) - Johnn Bonhan (Led Zeppelin) - Lee Kerslake (Uriah Heep) - Karl Palmer (ELP) - Don Brewer (Grand Funk) e o do KANSAS (Phill Ehart).  

 

Veja o documentário feito pelo Canal Futura:

 

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