Simone Sou, a alma feminina que batuca e inspira

08 de março de 2013, por Editorial
No Dia Internacional da Mulher, o Batera.com.br traz uma entrevista com Simone Sou. A percussionista, baterista e "extraidora de sons" tem uma longa trajetória, repleta de bandas, lugares e experiências enriquecedoras. Já tocou com Chico César, Orquídeas do Brasil, Funk Como Le Gusta, Robertinho Silva, entre muitos outros. Suas viagens e influências africanas apenas melhoram sua maneira própria de tocar.
 
Com o novo álbum SIM ONE SOU, a musicista traz energia feminina e uma música "humana, sonhada e vivida", que "incomoda e inspira". No momento, Simone mora na Holanda.
 
Confira o nosso bate papo com ela:
 
Site Batera: Como surgiu a paixão pela bateria/percussão?
Simone: Eu digo que foi a bateria que me escolheu, pois antes dela passei pelo piano e de raspão pelo violão e baixo elétrico. Comecei a ter aulas depois que ganhei um par de baquetas do meu primeiro namorado, quando eu tinha 14 anos. Fiquei dois anos só estudando, sem saber que me tornaria uma profissional e apaixonada pela arte do ritmo. A percussão surgiu depois, e a partir dela um mundo de possibilidades sonoras se abriu na minha frente. Percebi que o vigor e a vivacidade, necessária para se tocar bateria e percussão, eram o que eu queria enquanto expressão e comunicação artística.
 
Site Batera: Quem mais te apoiou a seguir a carreira?
Simone: Flávio Pimenta, meu professor de bateria, me entusiasmava muito. Sempre tive apoio e aceitação por parte da família, que no começo me "paitrocinou" as aulas e uma Gope [marca de instrumentos de percussão]. Por mais que eu tivesse escolhido um instrumento não convencional para garotas, minha seriedade com o instrumento trouxe a confiança pra dentro de casa, tanto que meu irmão, o batera Gustavo Souza, também começou a estudar e hoje é um super profissional e conquistou esse pedaço em casa. Não era só um hobby, uma onda, era de verdade. 
 
Site Batera: Quais os momentos mais marcantes da sua carreira?
Simone: São muitos. Mas posso listar alguns, em ordem cronológica:
A primeira gravação, com Itamar Assumpção e as Orquídeas do Brasil. O primeiro disco de que participei. Ficamos três meses em estúdio, desenvolvendo as músicas. Turnês pelo mundo com Chico César, a começar pelo Japão em 97, que foi uma experiência única. A maior aventura foi em 2000: uma turnê de três meses, um na Europa e dois nos EUA, quando moramos no ônibus viajando de costa a costa nos EUA. As sessões de gravação do CD Batucajé, durante 2004 e 2005, quando Robertinho Silva e Jadna Zimmermann passavam fins de semana na minha casa em SP, onde gravamos o CD de percussão brasileira experimental. Ficávamos trancados em casa, só experimentando levadas, grooves, milhões de percussões... e cozinhando juntos. A viagem para a Ilha Reunião em 2004 com Robertinho Silva e uma trupe de percussionistas do Rio junto com Raul de Souza: foi uma loucura! Era um intercâmbio cultural da pesada, foi lindo. Fazer a trilha sonora do mais recente filme de Beto Brant e participar de uma cena, quando fui filmar com eles em Santarém, Pará. Ficamos seis dias em um barco-hotel: nunca tinha estado em um set de filmagens antes, e eu me dirigi. O Beto queria uma xamã, e lá estava eu tocando panelas e tambores. Outro momento marcante foi minha mudança para Holanda, no ano passado. Estou começando uma nova história musical por aqui. Toco com meu parceiro, Oleg Fateev, acordeonista da Moldavia: temos um duo maluco que mistura música russa e brasileira. Utilizo um set de percuteria, sampler, misturo tudo, cada vez mais. Aventuro-me cada vez mais a tocar música livre, universal...
 
Site Batera: Quais instrumentistas te inspiram? Quais músicas te inspiram?
Simone: Hermeto sempre: o pai de todos. Egberto e Naná, mestres. Airto, pela ousadia desde os primórdios da percussão no jazz pelo mundo. Aí vai embora: Baden, Itamar, Edison Machado, Chico César, Iara Rennó, DJ Tudo, Barbatuques, Oleg Fateev,  Rumpillez, Bjork, Keith Jarret, Robertinho Silva, Jackson do Pandeiro, Staff Benda Bilili, Art Blakey, Tambours de Brazza. A música que me inspira é aquela que me emociona, que viaja na minha cabeça e me transforma. Tem muita música boa, arrumadinha, tudo no lugar, que não me emociona, então classifico assim: ou emociona, ou não emociona.
 
Site Batera: Quais características suas te ajudam a tocar bateria do seu jeito?
Simone: Minha personalidade, curiosidade e inquietude. A pesquisa na música tradicional brasileira trouxe muita referência ao meu comportamento musical, pois na vivência você aprende e se apropria do que vê e sente. Compor é um exercício de autoconhecimento onde me descobri muito. O trabalho corporal sempre foi importante para mim, pois é onde o ritmo começa: pulso e coordenação. Uma combinação de técnica e aprendizado diário, não só musical, mas da vida, fazem cada músico ter uma história para contar.  
 
Site Batera: Existe preconceito contra mulheres na bateria? Que tipo de situação de preconceito você já viveu?
Simone: Preconceito eu nunca senti, mas desconfiança, sim. Vivi situações de ser tratada de um jeito antes e outro jeito depois de um show. Sempre me senti um músico feminino, e não feminista, então minha postura sempre foi igual a todos os outros da banda, e não uma garotinha na bateria. Depende muito também de como a mulher se coloca no trabalho. Acho que tem um lado machista em relação às mulheres bateristas, porque eu já ouvi ?você toca como homem?. O difícil é um homem tocar como uma mulher. Mas eu nunca penso sobre isso pois minha postura é: sou músico. Hoje em dia é legal ter uma baterista ou percussionista na banda. 
 
Site Batera: O que mais te motiva a fazer música?
Simone: Descobrir novas possibilidades sonoras, escutar o que já foi feito e criar, recriar, inventar, reinventar. Eu nunca sossego. Estou sempre em uma busca, por isso estou aqui na Holanda, recomeçando uma nova história, novas inspirações. Nos anos 90 acompanhei muitos artistas da MPB. Hoje quero mais aventura, mais desafios. Lancei meu CD SIM ONE SOU em 2011 e não aconteceu muita coisa, pois é um CD difícil de classificar: instrumental com poesia cantada "Música brasileira experimental" Eu me vi um pouco fora de cena, mas minha vontade é essa mesmo, sair pelo mundo afora, agora, com meu mundo dentro de mim.
 
Site Batera: Que diferenças uma mulher pode oferecer ao trabalho de percussionista, seja na energia, no modo de fazer ou na forma de tocar o instrumento?
Simone: A experiência de ser uma mulher na música já é uma oferenda. A mulher é o ser que decide a vida, que gera a vida. Esse poder é único. Quando a mulher não tem filho, como eu, os filhos se multiplicam, pois o cuidado com a vida é um dom. A relação da mulher com o tambor é muito antiga. Desde o Egito antigo, o poder espiritual era feminino e a percussão parece que traz essa antiga relação. Acho que com o tempo a gente vai reconhecendo isso. O tambor na mão de uma mulher faz muito sentido.
 
 

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