Teo Lima

10 de junho de 2004, por Carlos Fernando Maggiolo

A ponte aérea Rio-São Paulo não é exclusividade dos homens de negócio. É frequente encontrarmos ilustres figuras do meio artísticos desfilando pela sala de embarque e pelos corredores dos aviões. Esses notáveis destacam-se mais ainda do que já normalmente brilham as suas estrelas, porque em meio a homens fabricados em série – todos iguais, com terno escuro, gravata, sapato de couro e mala 007 portando um note de última geração, revelam-se com suas roupas diferentes e irreverentes – a imagem do artista é uma expressão artística por si só. Assim estava o nosso querido Téo Lima no Aeroporto Santos Dumont, no Rio. De terno e gravata, mas de tênis – e com uma mala 007 com a logomarca da Remo e da Zildjian estampadas em branco, numa manhã, no começo do mês de maio. Eu não podia perder essa oportunidade – assediei – nem na ponte aérea o Téo Lima consegue descansar. Ele estava indo para São Paulo para fazer um trabalho com Ivan Lins, mas intimei o batera a nos dar uma entrevista exclusiva. Téo Lima é o nome que precisávamos para lançar a primeira edição da coluna de entrevistas. Começamos com o pé direito. Ninguém melhor que o batera que mais gravou na história dos bateristas brasileiros (e provavelmente do mundo), para deixar a nossa coluna fadada ao sucesso: 5000 gravações. Além disso, seu nome é expressivo não só no meio musical – seu engajamento político é grande, participando de movimentos sociais e criando projetos sociais voltados para aqueles menos favorecidos. Para finalizar este preâmbulo, na realização da entrevista, de brinde, assisti a passagem de som da cantora e pianista canadense, Carol Welsman, aclamada internacionalmente, acompanhada do violonista, pianista, compositor e arranjador – Oscar Castro Neves, renomado músico brasileiro que atualmente mora em Los Angeles. Na batera, o nosso singular Téo Lima. Eu sou um homem de sorte.

Site Batera: Seu envolvimento em projetos sociais e políticos é grande. Percebemos que a música para você é um instrumento de reforma social e educacional - você pensa grande. Como você vê as perspectivas de mercado do músico, especialmente o baterista, nos próximos dez ou quinze anos, no Brasil?

Teo Lima: Não acredito em grandes mudanças não. A pirataria é muito preocupante. A situação do Brasil é diferente dos países do primeiro mundo, sobretudo os Estados Unidos. Lá a pirataria é eletrônica. Todos têm acesso à internet – dela fazendo um “paraíso da pirataria”, mas é eletrônica – volto a sublinhar – não atinge tanto o músico, pois todos compram os Cds originais. Todos querem ter a capa original e as músicas com qualidade. Aqui não. No Brasil você vê o CD com capa - todo pirata – vendendo em qualquer esquina – e pior – nas lojas. Aqui a grande massa não tem computador. Menos de cinco por cento da população tem acesso à internet e o povo prefere comprar o CD pirata. Isso sim - acaba com o músico e com as gravadoras, que estão em crise. Eu votei no Lula – não que eu seja PT - votei como todo brasileiro votou, porque foi um sindicalista, porque conhece e viveu as necessidades do povo – agora esperamos ver o Brasil se adequando à realidade. Se o Brasil melhorar no combate à pirataria já facilitará muito o nosso terreno profissional. Porém, essa questão de pirataria é uma questão de educação. Eu, por exemplo, pego um CD do Roberto Carlos e vejo quem está acompanhando o cantor: tem fulano, tem beltrano, o cd é bom – vou comprar. Eu compro o CD porque sei que vou ter uma música de qualidade, e compro com essa satisfação, pois estou prestigiando os artistas que tocaram. Acredito que todo músico seja assim - somos educados. Lá fora todos são assim, mas aqui só uma pequena parte da população. Por isso é que eu digo que isso é uma questão de educação. As rádios, por sua vez, já foram piores. Antigamente só se tocava uma música se pagasse o que o meio chama de “jabá” (propina). Aí faziam cinquenta inserções por dia e massificavam a música na nossa cabeça. Entretanto, continua aquela tendência de se tocar o pop internacional, sem abertura para a música brasileira que não seja o pop-rock.

Site Batera: E o baterista, quais os dotes, qual o perfil necessário do baterista profissional de sucesso, aquele que vai conquistar o seu lugar ao sol?

Teo Lima: O mercado é voltado para o pop. Eu mesmo vim do rock – toquei em banda de rock. Aliás, o rock é o primeiro estilo acessível ao baterista, naturalmente. Você não encontra banda de chorinho com baterista – é muito difícil. Porém, eu acho que o brasileiro não pode esquecer a sua raiz. Eu fixei muito na minha personalidade musical a música brasileira. Eu sou brasileiro e toco música da minha raiz. Ora, por que será que grandes nomes internacionais me chamam para tocar e gravar com eles? É porque necessitam de um baterista com intimidade com o latino e com o som brasileiro e me chamam porque conhecem o trabalho que eu faço no Brasil. O brasileiro tem que ouvir e tocar de tudo – não pode ter preconceito. Ele pode ter sua base ali no rock – que passe pelo rock-and-roll, tudo bem, mas tem que tocar música brasileira - tem que se fixar na raiz dele. Não existe outra forma de conseguir se estabelecer no trabalho. Você tem que ser versátil. Tem que tocar tudo – o que gosta e o que não gosta. Eu fui criticado porque numa determinada época eu gravava com todo mundo, de Elis Regina ao mais brega. Diziam à boca pequena que eu estava tocando brega. Ora, é um trabalho. Trabalho é trabalho. O V.Colaiuta é um exemplo disso tocando com Sandy & Junior. Esse é um problema sério no Brasil - as pessoas rotulam o baterista: aquele é do rock, aquele outro é do samba – os bateristas acabam ficando rotulados. Mas a vida de baterista tem que ser eclética. Eu gravava com a Paula Toller – ela saía e eu gravava com Martinho da Vila, e em seguida com Maria Bethânia. Para o baterista se estabelecer no mercado ele tem que ser assim.

Site Batera: De todos os países que você tocou, qual ou quais apresentam um público caloroso como o Brasil?

Teo Lima: Eu já toquei no mundo todo. Tenho uma afinidade enorme com os Estados Unidos. Já tenho um público por lá e por isso sinto muito carinho pela platéia e vice-versa. Mas o Japão é uma coisa singular. O amor do japonês pela música e pelos músicos brasileiros é algo de outro mundo. Eles deliram com os bateristas brasileiros. Para que se tenha idéia do que eu estou falando, num estúdio japonês estavam tocando um som que eu gravei com Ivan Lins. Passou um repórter japonês pela sala e perguntou: “Téo Lima???”, acenaram que sim e ele ficou pulando mesmo lugar. Reconheceu-me pela forma como toco, nos primeiros compassos. Realmente, o carinho da platéia japonesa é difícil de descrever. O povo japonês vê a música brasileira como a melhor do mundo – e é mesmo. Já toquei treze vezes no Japão.

Site Batera: Qual é o segredo do sucesso – como você sintetizaria essa questão? Qual o conselho que você dá para os jovens adolescentes e pré-adultos que sonham em um dia serem bateristas profissionais?

Teo Lima: Ética. Eu costumo dizer nos meus workshops que acima de saber tocar o músico tem que ser “uma pessoa”, tem que ser “gente”. Eu prefiro tocar com um profissional que não toque nada do que com um músico “fera”, mas mau-caráter. Bateria é um instrumento que você tem que estar sempre estudando em casa – toda hora no “papa-mama”, mas a dignidade é muito importante, porque as pessoas vão fazendo um conceito sobre você e se você é respeitado te chamam para trabalhar. São esses os dois conselhos que eu dou. Estude – estude muito, com constância, mas em primeiro lugar – tenha caráter.

Site Batera: Com quem você está tocando e gravando?

Teo Lima: Há mais de dez anos que eu toco com Ivan Lins e faço a direção musical também. Já temos uns doze discos gravados por aqui e dois no exterior – sem contar a participação em discos estrangeiros, que gravo sempre que o Ivan me chama. A outra espinha importante nos meus trabalhos é o “Batakotô”, que eu estou lançando o terceiro disco agora. Temos alguns shows programados, ganhamos muitos títulos e estamos concorrendo a outros. Esse trabalho começou em 94 com a gravadora do Ivan – a proposta é gravar música brasileira – com sinceridade. Em termos de gravações tenho sido chamado para fazer uma faixa ou outra. Ultimamente tenho trabalhado em estúdios com as pessoas que eu gravo sempre, como Jorge Aragão e Martinho da Vila. Também estou preparando o CD do Ivan Lins.

Site Batera: Qual é o seu set?

Teo Lima: Eu sou endorsee da Remo – e por falar nisso acabei de recebeu um set novo que nem saiu da caixa ainda. Também sou endorsee da Zildjian e da Vic Firth, onde assino uma baqueta 5B. Minha batera é de três toms – 10”,12” e 14” – e um surdo de 16”. Meu bumbo é de 22” x 18” – eu gosto do bumbo um pouquinho maior.

Site Batera: Você pretende aposentar as baquetas? Aproveite e fale um pouquinho da sua vida musical.

Teo Lima: Eu sou alagoano.Comecei tocando clarineta e depois passei para trompete. Só depois disso é que vim parar na bateria. Eu tocava com o pessoal da escola e todos os sábados promovíamos um festival. O nosso objetivo era tocar bem – e tocávamos. Minha jornada musical começou aos seis anos de idade. A passagem para a bateria não foi difícil, pois eu já conhecia música – o meu problema era unicamente a interpretação do instrumento. Faço muito workshop nos EUA, mas nunca estudei fora. Já tenho muita estrada - descrever a minha jornada não é tarefa fácil. Se me perguntassem isso na época em que eu fui tocar com a Elis Regina em substituição ao Picolé, eu já não saberia descrever. Depois passamos por Djavan e tudo mais. Pretendo me aposentar sim, mas não vou pendurar as baquetas – e mesmo assim, lá pra frente. Tenho projetos para o futuro, mas não consigo me afastar do mundo da bateria, jamais. Penso em montar uma escola de música num conceito diferente do que vemos pelo Brasil. Um trabalho sério aberto a todos os demais instrumentos musicais, com direito a intercâmbio com o exterior e tudo mais. Tudo ao seu tempo – estou desenvolvendo a idéia.

 

Veja também: Todas as entrevistas