Tostão Queiroga, Ebel Perrelli e Augusto Silva

19 de janeiro de 2012, por Adriana Pivatti

Hoje, nossa conversa tem sotaque nordestino e ritmo "maracadiddle".

Conversamos com os três bateristas responsáveis por organizar o Recife Tocando Tambor. A 1º edição aconteceu em dezembro do ano passado e levou cerca de 100 bateristas ao Parque Dona Lindu, em Boa Viagem, numa festa aos ritmos pernambucanos.

Criado para fortalecer essa brasilidade, o Recife Tocando Tambor continua com força total em 2012.

Cada um também falou sobre seus projetos, o que vem por ai, e como surgiu essa parceria entre Tostão Queiroga, Augusto Silva e Ebel Perelli: "Foi engraçado, pois quando me bateu a vontade de montar o Recife Tocando Tambor convidei logo Augusto pra tocar o projeto comigo, que abraçou de imediato a ideia, e depois durante os ensaios sentimos a necessidade de um terceiro baterista no palco com a gente pra dar mais sustentação aos grooves e aí o nome de Ebel foi tiro certo", diz Tostão.


Ebel

Site Batera: Quais os ritmos que você se aperfeiçoou?

Ebel: Bem, ao longo desses quase 24 anos tocando profissionalmente, tenho me aperfeiçoado em diversos ritmos. Iniciei escutando e tocando muito Rock'n'Roll e ainda escuto, acredito que seja minha maior influência musical. Me graduei na Musicians Institute of London e lá, percebi quanto era rica a região de Pernambuco e o Brasil. Foi daí que tive o "start" de começar a pesquisar os ritmos pernambucanos. Acredito que baião seja o ritmo que mais me identifico, embora ache que todos tenham o seu legado como: o maracatu, xote, frevo, ciranda, côco, etc. Eu costumo dizer que todo músico tem que colocar sua identidade naquilo que toca, pois só assim, sua "assinatura" será reconhecida mundo afora.

Site Batera: Fale mais sobre o Maracadiddle.

Ebel: O Maracadiddle foi também minha necessidade de adequar meu conhecimento aos ritmos regionais. Sendo o paradiddle um dos principais rudimentos que se aplica à bateria e também na percussão, foi uma descoberta sensacional. O paradiddle é uma combinação de toques onde se digita DEDD EDEE acentuando a primeira nota a cada grupo de quatro notas. Ou seja, a cada primeira do grupo de semicolcheias. Sendo o maracatu em 4/4, os dois primeiros tempos são na cabeça do tempo e o terceiro e quarto tempo, na segunda semicolcheia.

Site Batera: E o seu livro? Em que está trabalhando agora?

Ebel: Na verdade dei uma parada devido a falta de verba. Iniciei um projeto com um grande baterista e amigo meu, o Cassio Cunha, mas ainda não ficou pronto. Em breve retomaremos esse projeto. No momento estou ensaiando para gravação e registro de um trabalho que fiz com o guitarrista Fred Andrade há 11 anos, chamado "Projeto Mandinga". Resolvemos gravar e mostrar para quem não teve a oportunidade de nos ver ao vivo, conferir esse grande trabalho que trará gratas surpresas. Em breve sairá em DVD, em parceria com o Casona Estúdio.

Site Batera: Existem diferenças no perfil de alunos do colégio Tritonis para o conservatório? Os dois tem uma grade ou na escola é mais aberto a escolhas dos alunos? O que esses novos bateristas procuram?

Ebel: Com certeza existem. Os dois tem um programa, só que na escola é menos rígido, até porque os alunos que nos procuram são, na maioria das vezes, diletantes. São aqueles bateras que querem estudar mais focando em um determinado assunto. Embora na Tritonis, tenha um programa a ser cumprido, adaptamos um programa para cada aluno. No caso do conservatório, por ser uma instituição de ensino da rede estadual, temos que seguir um programa que é cobrado pela direção. Muitos alunos ou na maioria dos casos, querem aprender tudo muito rápido sem ter muito esforço. Costumo dizer que não se aprende só assistindo videos no youtube, tem que sentar no banquinho e malhar por horas e horas, anos a anos. Ainda não chegamos na era da entrada de "USB" humano, só há uma maneira de se aprender, é estudando e ralando muito.

Site Batera: Fale sobre os bateristas homenageados no evento Recife Tocando Tambor, Adelson Pereira da Silva e Maurício Chiappeta, e a importância para a música Pernambucana.

Ebel: Primeiramente, gostaria de agradecer o convite desses dois grandes bateristas e seres humanos que são Tostão Queiroga e Augusto Silva, de ter participado do Recife Tocando Tambor.

Pernambuco está de parabéns por ter esses dois "Mestres da Bateria" como Mauricio Chiappeta e Adelson Silva entre outros que já se foram mas tiveram sua importância na preservação de uma arte. Foi emocionante tocar junto com meu primeiro professor de bateria, o Chiappetta, que foi e sempre será, minha maior inspiração. Acho de estrema importância nós homenagearmos nossos ídolos em vida e, também, de manter eles motivados para que possam sempre ensinar e passar todo seu conhecimento a todos. É preciso exaltar a importância desses músicos, educadores, pessoas que enaltecem nossa arte de tocar bateria para que as nossas crianças e músicos do futuro possam se espelhar em suas influências preservando assim, a cultura de um povo tornando-a cada vez mais rica.


Augusto Silva

Site Batera: Como é participar da orquestra SpokFrevo?

Augusto: Participar de um projeto como esse é uma honra, também uma grande responsabilidade. Me sinto muito feliz em dividir as baquetas com um dos grandes mestres da bateria brasileira, o professor Adelson Silva.

A Spokfrevo tem a frente como maestro e diretor musical, o maestro Spok, que está revolucionando o Frevo no Recife. Fizemos várias turnês pela Europa, Ásia e África e dividimos o palco com grandes músicos do Jazz mundial: Bob Mcferrin, Chick Corea, Stevie Wonder, George Benson, Richard Bona, Marcus Muller, Stanley Clarke, Victor Wooten, entre outros.

Fazer o Frevo instrumental é uma façanha. Entre 13 e 31 de março, estaremos em turnê pelos Estados Unidos. 

Site Batera: Vocês também fazem apresentações com a Elba Ramalho, junto com o Tostão?

Augusto: Sim, com Elba Ramalho e outros artistas brasileiros. No caso da Elba Ramalho, o meu amigo Tostão fica de fora.  

Site Batera:  A orquestra é só de Frevo ou mistura mais ritmos pernambucanos? 

Augusto: Nós temos dois tipos de shows: o que chamamos de Jazz, que é frevo de rua instrumental, e o show de carnaval que se juntam a nós, Vanessa Oliveira e Almir Avilys, dois grandes intérpretes de Recife.

No show de jazz é somente o frevo de rua e no carnaval tocamos maracatu, côco de roda, mangue bit, frevo de rua, frevo de bloco e frevo canção.

Site Batera: Quais os principais nomes da percussão e da bateria, de Pernambuco?

Augusto: Vou citar alguns, mas me perdoem se esquecer algum nome.

Na percussão temos Naná Vasconcelos, Pita e Temilson Cavalcante, Mial, Mestre Passarinho, Barreto, Lucas dos Prazeres, Dedé Simpatia, Mavi, Bala, Mestre Lua, entre outros.

Na bateria temos Adelson Silva, Maurício Chiappetta, o falecido Geraldo Santos, meus amigos Ebel Perrelli e Tostão Queiroga, Bira batera, Sandro Pik, Thiago Piu Piu, Dedel Batera, Marcos Monte, Rodrigo e Lucas Barros.

Site Batera: Aqui em São Paulo é muito comum os iniciantes se interessarem por ritmos norte americanos ou Europeus. Como é em Pernambuco? O que vocês fazem para mudar essa consciência e fazê-los olhar para a música brasileira? Até mesmo porque são ritmos que ajudam na evolução no instrumento, pela complexidade e pela independência, certo?

Augusto: Aqui não é diferente. A maioria dos iniciantes se interessa por jazz, funk, salsa e tudo que vem de fora, mas acho que é uma fase de todo músico.

O Recife Tocando Tambor, além de agregar toda essa galera, faz a questão de tocar ritmos como o maracatu, côco, baião, ciranda e frevo, justamente para abrir os olhos dessa galera e mostrar a riqueza das nossas levadas.

Você tem razão, as levadas são complexas e ajudam muito no desenvolvimento dos estudos.


Tostão

Site Batera: Fale da sua experiência na produção, junto com Yuri Queiroga e Lula Queiroga, do álbum "Qual assunto mais lhe interessa?", da Elba Ramalho, vencedor do Grammy Latino de 2008 por melhor álbum de música contemporânea ou de raízes brasileiras?

Tostão:  A Elba já tinha gravado em discos passados duas músicas de Lula, a primeira "Essa Alegria" (um caboclinho) e a outra um Frevo que fez muito sucesso em todo Brasil chamada "Energia", em 2006 fui chamado para a banda da Elba e em 2007 ela resolveu a princípio gravar 2 músicas de Lula e pediu pra que ele produzisse essas duas músicas e Lula chamou eu e Yuri pra produzirmos juntos com ele essas 2 músicas, quando fomos ao estúdio da casa da Elba pra apresentar as músicas prontas, ela adorou a linguagem e rapidamente resolveu que queria que o disco todo tivesse aquela textura, daí nos convidou pra produzir o CD inteiro e foi muito prazeroso produzir este disco, primeiro porque a Elba é uma super intérprete e se adapta muito bem e verdadeira em qualquer estilo, e segundo que ela estava querendo naquele momento fazer um disco diferente e moderno e isso nos deixou muito a vontade pra criar usando texturas diferentes do habitual.

Site Batera: Você nasceu no Rio, hoje mora em Recife? Como surgiu essa parceria com Ebel e Augusto, também organizadores do Tocando Tambor?

Tostão: Então, somos de uma mesma geração de bateristas apesar de cada um ter seguindo uma direção diferente no início de suas carreiras, e cada um ter um estilo bem pessoal com a bateria, hoje além de fãs uns do outro somos grandes amigos sentíamos essa necessidade de estarmos juntos num projeto, e foi engraçado pois quando me bateu a vontade de montar o Recife Tocando Tambor convidei logo Augusto pra tocar o projeto comigo, que abraçou de imediato a ideia e depois durante os ensaio sentimos a necessidade de um terceiro baterista no palco com a gente pra dar mais sustentação as grooves e aí o nome de Ebel foi tiro certo. 

Site Batera: De onde veio sei interesse em raízes brasileiras? 

Tostão: Sou caçula de uma família de músicos/artistas e a música sempre foi natural lá em casa, cresci em meio a ensaios e pescando piaba em estúdios de gravação onde minha mãe Mêves Gama, sempre levava os filhos menores quando ia gravar jingles e discos. Também era comum ir aos shows e ouvir mamãe cantar na noite os grandes clássicos da MPB, isso já me fez ainda criança amar a bossa nova e quando comecei a tocar profissionalmente aos 13 anos o mercado nos mostrava que a nossa cultura e nossos ritmos eram sempre exigidos e isso nos fez ter um contato logo cedo com a música de Pernambuco e de todo Brasil.

Site Batera: Fale sobre os bateristas homenageados no evento Tocando Tambor, Adelson Pereira da Silva e Maurício Chiappeta, e sua importância para a música Pernambucana.

Tostão: Quando pensamos em homenagear bateristas no evento, de imediato vieram os nomes de Maurício Chiappetta e Adelson Silva, pois hoje em Recife são as duas maiores referências vivas para toda uma geração de bateristas pernambucanos, Maurício foi o principal professor do Conservatório Pernambucano de Música, uma referência no ensino da bateria no estado, e Adelson até hoje na ativa com a Spók Frevo Orquestra, além do maior baterista de frevo do mundo é um músico exemplar no universo da bateria, muito completo e muito focado no social, ele é o maestro da Banda XV de Novembro em Gravatá e regente da Banda do Sítio Limeira onde ensina música aos filhos dos agricultores da região.

Site Batera: Vocês conhecem a Varadouro Groove Orquestra? É de Pernmnbuco também. Se sim, o que acham? 

Tostão: Eu não conhecia, mas estou vendo alguns vídeos deles aqui no Youtube e achei muito legal, eles são de João Pessoa - PB, acho muito válida toda iniciativa que coloque o universo da bateria em destaque.

Site Batera: Quais as dificuldades de se promover um evento desse porte? 

Tostão: Olha, a principal dificuldade pra promover um evento desse porte ainda é a hora de se conseguir dinheiro, principalmente em uma primeira edição, pois ainda não temos nada pra mostrar além de um projeto num papel, fizemos muitas parcerias importantes pro festival com marcas de instrumentos como: A Baquetas ALBA, SONOTEC (Gretsch e Kick Port), Odery Drums, Octagon Cymbals, PRIDE MUSIC (PDP Drums e Peles REMO) e todos mandaram instrumentos e acessórios para sorteio, conseguimos também apoio da Prefeitura da Cidade do Recife que nos cedeu toda estrutura, agora quando falamos em verba em dinheiro é muito difícil, tivemos nessa primeira edição que recorrer a amigos que são amantes da música e da cultura pernambucana e com parcerias com empresa de luz e sonorização entre outros...

Site Batera: O projeto será anual? Quais os ajustes a serem feitos? As impressões dessa experiência? 

Tostão: Sim! O Projeto será anual, mas durante todo o ano O Recife Tocando Tambor irá promover ações do tipo Workshops, apresentações e até aulas itinerantes por diversas cidades do interior do estado. Temos muitos ajustes a serem feitos para a edição 2012 do festival, a principal será explorar ainda mais os bateristas inscritos e montar mais grooves que na edição de 2011.

Site Batera: Quantos bateristas compareceram no evento?

Tostão: Tivemos 96 Bateristas no evento o que foi muito bacana pra uma primeira edição, e o que me deixou muito animado foi a quantidade de mensagens de bateristas que não participaram, mas que assistiram vídeos e viram matérias na TV e confirmaram presença na edição de 2012.

Site Batera: Cada vez mais vemos uma divulgação em massa de material musical vindo de todas as partes do mundo, principalmente dos EUA. O nordeste mantém um trabalho de valorização e manutenção da sua cultura popular tradicional [descarto aqui os mega-artistas globais]? E como está o interesse dos músicos jovens nordestinos pelos ritmos da sua região?

Tostão: Acho que apesar de toda essa massificação de informação musical vindo de todas as partes do mundo e a velocidade que a Internet e suas ferramentas possibilitam a informações de todos os gêneros, o interesse dessa nova geração mudou muito em relação a nossos ritmos, já tivemos uma época pior tempos atrás! Ganhamos força com o movimento Mangue Beat e agora temos uma referência muito forte e competente na música instrumental com a Spok Frevo Orquestra, focado nisso também toda a nova safra de músicos montam seus trabalhos focados na nossa cultura e nossos ritmos.



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