Seja bem vindo ao Batera.com.br. [Login]
Skip Navigation LinksPágina Inicial » Entrevistas » Sérgio Conforti

A melhor entrevista é aquela em que o entrevistador se sente em casa. É claro que um estudo da biografia da celebridade entrevistada é fundamental para o desempenho de qualquer entrevista, mas nada supera aquela feita dentro de casa, porque o entrevistador vai saber explorar aquilo que o público quer saber e aquilo que o entrevistado tem de melhor para ser estampado numa entrevista.

Sérgio Conforti é meu amigo e mestre - a quem devo muito por esse meu regresso ao mundo dos tambores. Não sei se tenho vocação para bateria - mas também, não preciso dela - pois tenho o Sérgio Conforti como professor.

Nesse elenco de notáveis que venho entrevistando não poderia faltar esse baterista carioca, cuja paixão pela arte que abraçou serve como fonte inspiradora para todos nós.
Com vocês: Sérgio Conforti.

Site Batera: qualidade do seu trabalho não é algo que se alcança da noite para o dia. Ao contrário, é fruto de muito conhecimento - você é muito versátil - toca de tudo. Quais foram as suas primeiras influências?

Sérgio Conforti: Primeiro de tudo, muito obrigado pela oportunidade e por suas palavras generosas. Sinto-me muito honrado de ser um de seus entrevistados, de estar na mesma lista daqueles que sempre admirei. Bom, comecei a me interessar por música mais seriamente no final da década de 70, auge do movimento disco. Naquela época eu ouvia muito o grupo Santa Esmeralda. Depois veio o Supertramp, que havia estourado um disco pop (Breakfast in America). Passei a me interessar pela banda e comecei a comprar todos os discos deles, inclusive os da fase mais progressiva. Para comprar discos, eu e um amigo de escola ficávamos uma semana sem lanchar. Na sexta íamos juntos a uma loja com o dinheiro economizado e assim podíamos comprar os LPs. Nessa época ouvia também Fleetwood Mac. Meu interesse pela bateria apareceu pouco depois. Por um breve espaço de tempo quis ser flautista, ganhei uma flauta doce de meu avô, mas senti que não levava jeito para o instrumento. Foi aí que comecei a notar a bateria. Acho que foi o Bob C. Benberg (do Supertamp), o primeiro baterista a me chamar a atenção. Em 1979 um outro amigo de escola, mais velho, tinha na sua coleção LPs do Led Zeppelin, Deep Purple, Pink Floyd, Yes, Genesis, Eric Clapton, Jethro Tull etc. Como se não bastasse ele ainda tinha uma bateria em casa. Aí as coisas mudaram muito. Em meus primeiros contatos com o instrumento já mostrava bastante intimidade e facilidade para tocar. John Bonham passou a ser meu maior ídolo. Também fiquei fascinado por Ian Paice, Barrimore Barlow, Phil Collins, Bill Bruford e Henry Spinetti (Eric Clapton). É engraçado que o Henry Spinetti não é conhecido nem admirado, mas se você ouvir a música "I Can't Stand It" do CD "AnotherTicket", vai entender minha admiração. Paralelamente ao rock, sempre ouvi muita música brasileira. Gostávamos nessa mesma época do pessoal do Clube da Esquina (Beto Guedes, Lô Borges e Milton Nascimento). Ouvia assim os bateristas Robertinho Silva, Nenê e o próprio Beto Guedes. Outra coisa importante, poucos anos depois, foram as apresentações do Rio Arte Instrumental, no parque da Catacumba. Todos os domingos eu podia assistir música instrumental. Conheci naquela época o Pascoal Meirelles, André Tandetta e  bateristas americanos como o Jamey Haddad e o Tommy Campbell. Acho que a mistura disso tudo e outras muitas coisas que passei a me interessar depois formaram meu gosto musical e contribuíram enormemente para minha carreira. Comecei a ter aulas de bateria logo que ganhei minha primeira bateria, primeiro com o Claudio Wilner e depois com o Bituca. O professor também abre novos caminhos e desperta novos interesses.

Site Batera: Fale dos seus trabalhos atuais. Como andam os seus projetos (livros, play-along, CDs e shows)?

Sérgio Conforti: Bom, meu livro 1 lancei em 2001. É com ele que meus alunos trabalham nos primeiros anos de estudo. Estou preparando sua revisão (sempre aumento, atualizo e tento melhorar textos e exercícios). Ainda neste ano pretendo gravar o CD que passará a acompanhá-lo. O livro 2 está sendo feito, está enorme, com muitos exercícios e espero terminar até o final do ano. Estou mixando meu play-along e a previsão é também lançá-lo em 2004. São 22 músicas, em versões com e sem bateria, totalizando 44 faixas. As músicas foram compostas e arranjadas especialmente para o trabalho pelo Júlio Merlino, um dos maiores músicos que já tive o prazer de conhecer. Estou também gravando o CD que irá acompanhar o livro infantil "As Aventuras da Semínima Solitária", que fiz com a Patrícia Mauro. Nós dois produzimos também dois CDs demo (o dela e um projeto nosso chamado Brasileiríssimo). Espero também lançar até dezembro a apostila com CD do meu projeto de percussão Tambor Carioca. Nela haverá exercícios e transcrições das levadas que aparecem no CD. Além disso, participo de projetos de outras pessoas. Tenho feito muitas gravações, o que é muito bom. Quanto a shows, tem algumas datas agendadas, mas minha meta em 2004 é realizar todos esses projetos primeiro, para depois mostrá-los ao público.

Site Batera: O CDClick é um grande sucesso - superou todas as expectativas. Como foi essa brilhante sacada?

Sérgio Conforti: Bom, a idéia de um metrônomo gravado me veio há mais de vinte anos, quando tinha aulas com o Cláudio Wilner. Pedi que gravasse para mim uma fita cassete com diversos andamentos de seu metrônomo. A idéia era ótima, mas os recursos muito precários na época. Anos depois voltei a pensar nisso e me juntei ao Guga Fittipaldi para produzir o CDClick!. Gravamos no estúdio dele, fizemos um som composto, 22 faixas com andamentos de 40 a 208 e mais duas faixas com exercícios. O CDClick! portanto não é só um metrônomo. Além de tudo tem aquilo que todo baterista sempre precisou: VOLUME. Costumo dar aulas com duas baterias e não sentimos a menor necessidade de mais volume. Temos  vendido o produto pela Internet e para alunos e professores.

Site Batera: Você foi eleito o melhor baterista brasileiro de 2003 pelo Site Rock Progressivo Brasil, em razão da sua performance no CD do Eclipse. Esse reconhecimento de um site especializado te apontando como melhor baterista de rock progressivo deve ser uma injeção de ânimo. Você vê espaço para o rock progressivo no cenário brasileiro? Quais as perspectivas profissionais daquele baterista que não abre mão de tocar somente rock progressivo no Brasil?

Sérgio Conforti: Pois é, no início, queria ser baterista e sonhava tocar numa banda de progressivo. Anos depois fui reconhecido por essas duas coisas. Dá pra ver que fiquei muito feliz. Isso realmente me motiva muito. O rock progressivo no Brasil tem pouquíssimo espaço. Na verdade, quando gravamos o CD "Jumping from Springboards", não pensávamos conseguir muita coisa por aqui, nosso objetivo era o mercado externo, tanto que as músicas são todas em inglês. Antes que os nacionalistas de plantão se pronunciem, o Eclipse sempre usou elementos da música brasileira em nossas gravações. Gravamos três outros CDs, ambos tributos (O primeiro ao Gentle Giant e dois ao Emerson, Lake & Palmer) e nunca deixamos de colocar algo brasileiro. Bom, o "Jumping ..." é distribuído por dois selos, um brasileiro (Rock Symphony) e outro francês (Musea) e tem chegado a todos os lugares. Tenho acompanhado os comentários  na Internet e vejo que estamos sendo ouvidos em todo o mundo. Já encontrei referências no Japão, Polônia, Holanda, França, Bélgica, Inglaterra, Itália, Alemanha, Estados Unidos e até Uzbequistão. Quanto a somente tocar rock progressivo no Brasil, acho que a pessoa primeiro vai ter muita dificuldade de encontrar espaço e segundo vai se limitar muito como músico. É bom tocar de tudo, se você quiser ser um profissional. Aliás, nas vezes que me apresentei fora do Brasil, foi tocando música brasileira e não rock.

Site Batera: Você já tocou muito no exterior. Como é tocar fora do Brasil?

Sérgio Conforti: Na verdade foram duas as vezes que toquei fora do Brasil. Na primeira, me apresentei por diversas cidades portuguesas (Lisboa e o sul de Portugal, numa região chamada Algarve). Ficávamos com uma van e cada noite nos apresentávamos num lugar diferente. Isso durou  um mês e meio. Foi ótimo. Depois fui tocar no Chile, representando o Brasil, em dois festivais de jazz, um em Santiago e outro em Viña del Mar. Dessa vez fui tratado como astro internacional, fiquei em hotéis maravilhosos, dava entrevistas etc. Muito bom também. Foram duas experiências muito importantes. Agora pretendo com os  projetos Brasileiríssimo (repertório de música brasileira) e Tambor Carioca (curso intensivo de percussão brasileira) tocar novamente fora do Brasil.

Site Batera: Qual o conselho que você dá para aquele cidadão que pretende fazer carreira nos tambores?

Sérgio Conforti: Primeiro de tudo é estudar e muito. Tenha a cabeça aberta para poder absorver conhecimento. Conheço muitas pessoas que estudam um pouquinho e acham que já sabem tudo. É preciso ter também muita humildade, paciência e persistência. Ter aulas com um bom professor acho essencial. Professor abre caminhos, fornece atalhos. As pessoas exaltam muito o autodidatismo e dão exemplos de músicos que nunca tiveram aulas e ficaram famosos. Bom, muitos desses músicos foram gênios, o que não vemos por aí em toda esquina, e mesmo eles tinham limitações e não poderiam trabalhar em qualquer situação, como fazem os músicos profissionais com formação e experiência. Eu mesmo, depois de tantos anos de bateria, voltei a ter aulas, agora com o Pascoal Meirelles. Tenho estudado mais jazz e música afro-cubana. Ter uma postura séria é também fundamental. Tem muita gente que até é profissional, mas chega atrasada nos compromissos, não gosta de ensaiar, não lê música, tem equipamento em estado precário etc. Essas pessoas acabam, mais cedo ou mais tarde,  perdendo trabalho para outras. Uma coisa que percebi muito tardiamente, mas que mudou muito minha situação é que precisamos nos juntar a pessoas que realizem e não àquelas que têm apenas boas idéias. Produzir é uma grande coisa. Se as pessoas ao seu redor não produzem nada, produza você mesmo. Tenho feito isso já há alguns anos e o resultado já venho colhendo. Nós somos responsáveis em parte pelo mercado musical, pois fazemos parte dele de uma forma ou de outra. Se determinados músicos não chamam você para gravar, para se apresentar, chame-os para os seus projetos. Você vai acabar sendo chamado depois por eles, pois estará criando uma rede de contatos e isso é muito importante. Quanto mais pessoas você conhece, mais conhecido você fica. Isso é lógico!  Claro que você deve sempre mostrar competência pois senão o efeito será desastroso. Trabalhar com música não é fácil, mas podemos diversificar nossas atividades: dar aulas, gravar, fazer shows, escrever livros e artigos, compor, arranjar etc. Costumo dizer que não tenho emprego mas não me falta trabalho. Às vezes gostaria até de ter alguns clones meus para terminar tudo que tenho feito e poder começar os outros projetos.